quarta-feira, 6 de março de 2013

Considerações sobre o Bhagavad-Gita



1.     O homem deve agir conforme a necessidade da circunstância. Deve agir de modo indiferente aos frutos; agir com total desapego à conseqüência e às benesses de seu esforço. O homem que age pensando na boa colheita e no que desfrutará, corrompe-se, porque toda a sua ação perde a substância e assim ele tende a cair em vícios e perder-se hoje porque pensa no amanhã.
2.     Nada mais empurra o homem à corrupção e à maldade do que o desejo e a ira. A empreitada humana, executada por uma idéia de que ela irá retornar como uma boa colheita, é egoísmo e fraqueza. É como se dissipássemos a energia do “fazer agora” por ficarmos regozijando o que pode estar por vir depois.
3.     O desejo ofusca a boa intenção e nos confunde no presente, no “agora da ação”. Devemos nos ater àquilo que deve ser feito, porque as benesses da justiça não são só uma reação à ação de hoje, mas também uma ressonância de nossa ação, só que proveniente de uma outra extensão de nosso ser e/ou uma ação de outro ser. O mundo é ação.
4.     Fraquejar diante de adversidades e dilemas por temer executar uma determinada tarefa não te salvará do fracasso, afinal a não-execução de uma determinada coisa é, ao mesmo tempo, a execução de outra. A hesitação sempre vem do medo pelo depois e é aqui que temos de retroagir ao fato de simplesmente fazer e ponto final. Fazer o que tem de ser feito; combater o nosso medo e também a alegria; ter uma temperança extrema, um equilíbrio mórbido.
5.     Também se deve levar em consideração o conceito do Yajna (sacrifício) no qual explica que todo ganho desse e nesse mundo deve ser uma compensação por algo, por um esforço, mesmo que de maneira indiferente – afinal o desapego numa ação consiste num trabalho mental bastante elevado. Aqueles que nada sacrificam mas a tudo usufruem são fracos de espírito, não se elevam. É como se apropriarem de algo indigno a eles...
6.     Há o corpo, mas também os sentidos. Superior a eles há a razão, e a ela há o Atman (alma), centelha do Deus. Dessa maneira, controlando o Atman, ordenamos bem a razão, que ordena os sentidos e que, por sua vez, ordena o corpo: o meio pelo qual se faz o que se deve fazer.
7.     Deus não há forma e tampouco é algo palpável, mas se utiliza de algo concreto para ordenar o mundo: como o sol, para fazer o dia e a lua compondo a noite. Dessa maneira, percebemos a regularidade das coisas. Para entrarmos em harmonia, então, devemos também ser regulares conosco ao máximo. Assim trabalhos o nosso Ser e ele é a essência de todo o resto.
8.     A verdade e os valores sempre prevalecem pois são intrínsecos ao espírito. Seu antônimo, a bestialidade, a desonra e o mal, não, pois não são coisas independentes e não podem existir por si mesmas. Aquele que distingue o bem do mal, ao pé da letra, é o homem sem interesse, sem a vontade de espiar o futuro – o mal é simplesmente a ausência.
9.     O autocontrole é o meio pelo qual se consegue Ser.
10. Não há nada sem sacrifício; não pode haver nada sem sacrifício. Ele legitima o sucesso, o sabor. É a compensação pelo sorriso e pelo esforço; por todas as forças intelectuais, físicas e espirituais suas que travaram entre si conflitos e ascenderam ao mesmo tempo. O equilíbrio, portanto, faz-se mais do que necessário. É também importante o conhecimento, o Jnana, que é aquela percepção além do intelecto; um saber que parte do espírito e não do mero raciocínio e da mera lógica humana.
11. Todos os esforços desembocam em mesmo lugar; todas as ações findam em um mesmo ponto. A questão não é onde chegar, mas sim como chegar. O homem cria esse caminho à medida que se esforça para alcançar o que se almeja: essa espécie de perfeição, essa espécie de completude. O esforço forja o bom caminho. A negligência é uma desonra para com seu espírito, fragmento de um outro maior, soberano e essência de todos. O homem deve se empenhar em tudo o que se propõe, sempre. 


terça-feira, 5 de março de 2013

Deus

(ler em voz alta)


Deus


Ó Meu Deus, que bem, que graça és Tu,
Que me permitiu viver e, sobretudo, morrer.
Levanta-me em Teus braços, tal como vim: só nu.
Para assim contemplar-Te sem a nada temer.

Tua luz, o Teu Ser, é o único guia.
Vejo-Te sempre, em cada o momento,
Sorrindo para mim, que tanto temia,
Esse mundo todo agourento.

O espírito para Ti sempre vai.
É uma natural vocação:
- O filho anseia pelo colo do Pai;
O imperfeito pela Perfeição.

Que não esqueçamos de Tua arte;
Que lembremo-nos sempre a nós:
Somos, por ora, só mera parte,
Enquanto não deitar em Vós.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Contraste dos democratas


Frequentemente exprimo opiniões um tanto quanto anti-democráticas. Em recente ocasião discutia sobre o sufrágio universal e a tristeza que isso nos legou em todos os sentidos – afinal, as pessoas, em geral, não têm a mínima capacidade de discernir. O sujeito disse que todos devem poder votar, até porque todos pagam impostos. Rebati dizendo que você pode interferir na política indiretamente também e que o voto não é a única forma de fazer tal coisa. A outra pessoa começou com um discurso do quão autoritário eu parecia, e do quão eu podia estar fomentando um totalitarismo em breve, ao mesmo tempo em que dizia que eu era presunçoso quando julgava a "incapacidade" dos demais. Seguiu dizendo que o meu ponto de vista era muito ultrapassado e que eu deveria ser menos intolerante. Fiquei escutando tudo com muita atenção e até lustrando certos adjetivos pejorativos que lançava sobre mim. Por fim, respondi que mesmo eu sendo para ele uma pessoa intolerante, peremptória, equivocada etc., nesse nosso sistema, o meu "poder político" valia o mesmo que o dele. Assim se calou.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Apeirokalia - Olavo de Carvalho

(...)
"O impedimento a que me refiro não é material ou quantificável. O IBGE não o inclui em seus cálculos e o Ministério da Educação o ignora por completo. No entanto ele existe, tem nome e é conhecido há mais de dois milênios. A mente treinada reconhece sua presença de imediato, numa percepção intuitiva tão simples quanto a da diferença entre o dia e a noite.

Os gregos chamavam-no apeirokalia. Quer dizer simplesmente "falta de experiência das coisas mais belas". Sob esse termo, entendia-se que o indivíduo que fosse privado, durante as etapas decisivas de sua formação, de certas experiências interiores que despertassem nele a ânsia do belo, do bem e do verdadeiro, jamais poderia compreender as conversações dos sábios, por mais que se adestrasse nas ciências, nas letras e na retórica. Platão diria que esse homem é o prisioneiro da caverna. Aristóteles, em linguagem mais técnica, dizia que os ritos não têm por finalidade transmitir aos homens um ensinamento definido, mas deixar em suas almas uma profunda impressão. Quem conhece a importância decisiva que Aristóteles atribui às impressões imaginativas, entende a gravidade extrema do que ele quer dizer: essas impressões profundas exercem na alma um impacto iluminante e estruturador. Na ausência delas, a inteligência fica patinando em falso sobre a multidão dos dados sensíveis, sem captar neles o nexo simbólico que, fazendo a ponte entre as abstrações e a realidade, não deixa que nossos raciocínios se dispersem numa combinatória alucinante de silogismos vazios, expressões pedantes da impotência de conhecer.

Mas é claro que as experiências interiores a que Aristóteles se refere não são fornecidas apenas pelos "ritos", no sentido técnico e estrito do termo. O teatro e a poesia também podem abrir as almas a um influxo do alto. À música — a certas músicas — não se pode negar o poder de gerar efeito semelhante. A simples contemplação da natureza, um acaso providencial, ou mesmo, nas almas sensíveis, certos estados de arrebatamento amoroso, quando associados a um forte apelo moral (lembrem-se de Raskolnikov diante de Sônia, em Crime e Castigo), podem colocar a alma numa espécie de êxtase que a liberte da caverna e da apeirokalia.

Porém, com mais probabilidade, as experiências mais intensas que um homem tenha tido ao longo de sua vida serão de índole a desviá-lo do tipo de coisa que Aristóteles tem em vista. Pois o que caracteriza a impressão vivificante que o filósofo menciona é justamente a impossibilidade de separar, no seu conteúdo, a verdade, o bem e a beleza. De Platão a Leibniz, não houve um só filósofo digno do nome que não proclamasse da maneira mais enfática a unidade desses três aspectos do Ser. E aí começa o problema: muitos homens não tiveram jamais alguma experiência na qual o belo, o bem e o verdadeiro não aparecessem separados por abismos intransponíveis. Esses homens são vítimas da apeirokalia — e entre eles contam-se alguns dos mais notórios intelectuais que hoje fazem a cabeça do mundo.''
(...)

Texto na íntegra: http://www.olavodecarvalho.org/livros/apeirokalia.htm 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Sobre o inferno e a condenação do homem



"Por definição, o Inferno é um "estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados" (CIC 1033). Ora, a palavra auto-exclusão não deixa margem para qualquer dúvida: não é Deus quem condena o homem, mas o próprio homem. Mas, como isso ocorre? Para se compreender como o próprio homem pode renegar a comunhão com Deus é preciso entender que ele é totalmente, tragicamente livre. Tão livre que pode, no instante final, virar as costas para Deus."

Esse vídeo retira muitas dúvidas e confusões que fazem acerca do tema. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O grande inimigo


O ato de pensar é um ato solitário. Assim, para escapar do comum, tem de se ficar só. Não que boas idéias não nos cheguem através de uma boa conversa, não é isso. Mas as primordiais coisas que existem não possuem palavras que possibilitem um diálogo salutar. O máximo que se pode conseguir é tirar conclusões daquilo a que se pensa. As questões mais complexas do homem encerram no indivíduo e a fala não foi inventada para si, mas para o coletivo. Talvez uma das coisas mais importantes a ser feitas nos dias de hoje é conservar-se: conservar essa parte nossa original, distinta, ímpar e que não encontra nada que a complete fora de nós mesmos. Não obstante, o mundo, junto a tantos outros homens, trata de nos alienar constantemente. Mas o erro é pensar que o mundo é o grande responsável, porque não é. O nosso grande inimigo é o nosso vício, a nossa frouxidão, o nosso cansaço e todas as faculdades temporais, materiais, que se encontram no outro extremo das questões mais fundamentais. Primeiramente, antes de qualquer coisa, deve-se tomar consciência de suas falhas e não se deixar destruir por si mesmo.

domingo, 20 de janeiro de 2013

A pergunta cínica


“Afinal, o que é certo?” é uma indagação bastante perigosa e que praticamente legitima toda a conduta humana. São Tomás de Aquino, por exemplo, não buscava  somente provar a existência de Deus. Ele se preocupava, também, em tentar demonstrar que a não existência de Deus era algo que beirava ao ridículo e ao absurdo. De maneira muito razoável, assim, ele provava a existência de Deus ao anular a idéia antagônica, a de que Deus não existia. No tocante à pergunta “Afinal, o que é certo?” cabe ridicularizar o seu dono, ou quem dela se utiliza. Não se dá para demonstrar o que é certo, pois não podemos tirar uma amostra do infinito e de tudo o que nos rodeia. Dá para, sim, demonstrar que não haver certo é algo ridículo. Tomemos duas frases: “A razão está morta” e “Não há certo e nem errado”. Todas essas duas frases são um paradoxo lógico absoluto; elas se auto-anulam. A primeira, porque não há como definir a inexistência da razão sem usar da própria faculdade da razão. A segunda, pois relativiza a própria afirmação. Realmente, não posso demonstrar o que é certo e prová-lo. Mas quem pode me provar que não há um carro azul estacionado na esquina? O fato é que estamos tão imersos na Verdade tal qual um peixe está na água, não podendo pensar na realidade, em nossa existência, sem levar esse outro substrato que o compõe.