quinta-feira, 6 de junho de 2013

Marcha das vadias


A histeria coletiva desvairada – e já por isso ridícula – das marchas das vadias, recém-realizadas, esconde uma face de total alienação e ausência de senso histórico, lógico e de uma mínima reflexão. Tamanhas negligências, embora explícitas, foram pouco aludidas nos diversos meios – sejam prós ou contras – e é por isso que irei aqui enumerá-las e evidenciar o assustador momento que padece a mente moderna.

Em primeiro lugar, quem organiza as marchas das vadias? São os setores libertários, semi-revolucionários – ou com afã para tal – que flertam alucinadamente com as idéias de esquerda, fundindo-as em princípios anarquistas e até mesmo absorvendo certas óticas conservadoras, findando num samba do crioulo doido que só poderia ser visto, em toda a sua decadente dimensão, aqui mesmo, em terras tupiniquins. Mas antes tais setores limitassem-se a só esbravejar contra o truculento “sistema sexista”, “opressor”, que muitas vezes culpa as mulheres pelos estupros e crimes mais hediondos que são acometidas – pois, salvo engano, esse foi um dos temas salientados nas marchas das vadias esse ano. Assim, gritam contra um sistema machista que vitimiza o meliante, em diversos sentidos, como se ele fosse uma pessoa que foi levada, em grande medida, pelo ambiente em que está, a cometer tal delito, e quase que criminaliza a vítima estuprada. E o que temos aqui, senhores, senão um produto de decênios sem fim de “direitos humanos”, “penas alternativas” e discursos como “o marginal é produto de um meio sem oportunidades”? Não temos nada além disso, nada, absolutamente. Mas quem vocifera, há décadas, em nome dos criminosos, senão seres de mesmo cunho ideológico, ou semelhante, daqueles que estão a tirar os sutiãs e gritar palavras de (des)ordem em vias públicas exigindo um “direito” que lhes foi roubado por uma sociedade cristã, ocidental e moralista? Essa tal sociedade é, na realidade – a semi-hipotética, pois tal sociedade já não mais existe propriamente – o único rincão de resistência a toda barbárie gnóstica, desvairada e relativizante que muitos aí estão a reclamar. Pois, não são os cabeças dessas marchas todos de esquerda, que olham com lágrimas nos olhos para os “bestializados” e “vulneráveis sociais”, quase que se comovendo quando esses saltam para uma vida ímpia, afinal a culpa é da norma, da ordem, e não da blasfêmia e da desordem?

Desmascarada tal coisa, cabe-nos refletir sobre a mulher e a sua independência. Independência do quê? Da família, essa instituição repressora, autoritária e mentirosa; essa instituição fingida, hipócrita. Pois bem, tiramos a mulher do marido, dos filhos – assim reclamam eles – e as põem no mundo. Entretanto, onde, de fato, está a maior vulnerabilidade: entre os seus, o seu marido, seu pai, seus irmãos, seus filhos etc., ou no mundo, com um desconhecido, submetida a um patrão? – Que horrendo! Um patrão! O ícone-mor da sociedade opressora e exploradora! Para as favas esse discurso sobre a família, heteronormatividade e sexismo. Para as favas! Isso é coisa que qualquer doente mental pode deduzir: o mundo é, muitas vezes, imperdoável. A família não. A família, dizem eles, esses leitores de Marcuse e cia., é o ponta-pé inicial para dar-se no reto alheio e jogá-lo numa sociedade doente e vil, sendo que o propósito da família e a sua manutenção por todos os séculos, em todas as culturas, é para única e exclusivamente esse fim. Entretanto, por Deus! Onde, onde a família é um produto de uma ordem outra e não a causa dessa ordem e de todas as demais? E como dizer que a família reproduz, inevitavelmente, a exploração e danação do homem, quando ela se deu naturalmente em todas as culturas, por mais díspares que tenham sido, tanto em primitivas culturas, passando por épocas distintas de uma mesma cultura, mesmo que tantas culturas tenham permanecido no mais completo “comunismo puro”?

Nada, jamais, conseguiu validar tanto a vida humana como a cultura ocidental. Zelo pela vida alheia, respeito por outrem e reconhecimento da importância do ser, jamais se deu em cultura bárbara alguma, por menos “propriedade” que houvesse ou a total ausência disso. Curiosamente, e isso é um ponto a se escancarar com todas as forças, esses grupos de pressão que clamam por minorias quaisquer – as mulheres, nesse texto – têm somente um único e centesimal segundo de validade, que é quando se apossa do elemento cristão para assim tentar validar a vida e liberdade de outros. Mas isso tudo se perde no momento em que se funde com essa barbárie tresloucada, sem sentido algum, dessa ideologia vermelha que tanto presenteou o solo com sangue nesse mais de um século e meio de vida. E, obviamente, o tal samba do crioulo doido atual não poderá fazer melhor por nós.


Por um fim da marcha das vadias e todas essas outras marchas com perspectivas míopes, vulgares e rasas da vida. Que haja nobreza, clareza e força de vontade. Fora a massa que a tudo contamina e destrói.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O brasileiro

Paira uma carência no povo brasileiro, que é a carência da vontade, do indivíduo, do vigor e da serenidade reflexiva. O semblante desse povo é quase que todo vulgar, homogêneo, fazendo-nos confundir qualquer um com algum outro, essencialmente; não nos deixando enxergar nada além de uma visão ordinária de um ser que não almeja coisa alguma, além de um prazer momentâneo.
Não é que não se possa ser ignorante e baixo: pode-se sê-lo, sem dúvida! O mundo, a natureza, não clama para que se seja altivo, decisivo e reflexivo, absolutamente. Não há uma demanda natural para que se seja nada nessa vida, entretanto, ainda assim, as pessoas de índole mais baixa e vulgaridade mais avantajada cismam em meter o bedelho em tudo e dar suas opiniões sobre assuntos para os quais não devotaram cinco minutos de reflexão. Tal despudor, despreparo e desprezo para com o mínimo que o bom senso exige, vê-se na cara do brasileiro, cujas características já foram citadas mais no início do texto, e enoja a qualquer um que procure realizar o exercício de se deslocar para fora e observar tal como corre a nossa sociedade e os seus dementes. Tal observação também nos leva, naturalmente e necessariamente, a uma questão que de tão notória é negligenciada: a da indignidade do povo brasileiro em seus extremos. Esse povo não consegue ser pobre, tem de ser miserável. Não consegue ser ambicioso, tem de ser mesquinho. Não consegue ser mal-informado, tem de ser ignorante. Não consegue ter poucos modos, é grosseiro e, obviamente, não consegue calar-se, bastar-se, tendo de ser metido e extremamente vergonhoso em suas intransigentes burrices.
O brasileiro é o povo mais incapaz da face da terra. Na realidade, não é nem “povo”, é um amontoado de seres que conseguem se misturar pela total carência de índole e de todas as condições elevadas e substanciais que constituem um homem com H maiúsculo.
Não obstante, um pequeno texto para criticar esses seres tem o mesmo efeito que um discurso que é ofuscado, sempre, por um coro de urros animalescos. Não adianta escrever. Penso que a única didática para essa gente seja a do chicote.


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Homens de mente lúcida / El hombre de cabeza clara

"Homem de mente lúcida é aquele que se liberta dessas “idéias” fantasmagóricas e olha de frente a vida, e se convence de que tudo nela é problemático, e se sente perdido. Como isso é a pura verdade – a saber, que viver é sentir-se perdido –, quem o aceita já começou a encontrar-se, já começou a descobrir sua autêntica realidade, já está no firme. Instintivamente, como o náufrago, buscará algo para se agarrar, e esse olhar trágico, peremptório, absolutamente veraz porque se trata de salvar-se, lhe facultará pôr ordem no caos de sua vida. Estas são as únicas idéias verdadeiras; as idéias dos náufragos. O resto é retórica, postura, íntima farsa. Quem não se sente de verdade perdido perde-se inexoravelmente; é dizer, não se encontra jamais, não topa nunca com a própria realidade."

Ortega y Gasset 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Liberalismo/libertarianismo: a nova boiolagem


Hoje em dia está na moda lançar a idéia de que “se não há argumento, parte-se para a violência”, com uma única exclusividade, a de “enfeiar” o adversário. Essa prática não é somente ridícula como é também um atestado de total ignorância, funcionando, quando com muito otimismo, como uma boa cortina para não transparecer a fragilidade de quem a pronuncia.

Recentemente alguém proclamou essa frase em conversa comigo. Não pude sentir nada além de desprezo pela pessoa, por seu total desconhecimento da situação corrente, por sua total alienação. Foi um liberal quem me presenteou com tal pérola. Atualmente me enojo com os liberais, e isso não é falta de conhecimento da “causa”: já convivi com muitos liberais, leio bastante de economia liberal – o que via ou outra me traz a esse ou aquele liberalismo político – e fui a várias eventos  e “debates liberais”.

Jamais fui liberal, mas já tive certa esperança na causa. Ela foi subitamente extirpada quando me deparei, de fato, com um evento liberal e os seus palestrantes. Era uma situação pícara, onde não sabia se ria, chorava ou xingava: todos aqueles “imponentes” e intelectuais liberais, de voz mansa, de gravatas borboletas, completamente frágeis em si mesmos e que não demonstravam força e virilidade alguma. Sei que a aparência não faz o homem, tampouco suas roupas, mas a forma como se aparenta o faz, pois é um reflexo de sua essência. O que quero dizer com isso é que havia uma ausência de virilidade, de espírito combativo sem tamanho, em todos – eu reafirmo: todos – os liberais que já encontrei em minha vida. Suas entonações de voz, seus excessivos “modos”, suas gravatas borboletas, seus modos de andar... tudo era e é tão cômico. A um homem desses eu não confiaria uma banana, mas eles lá e cá se projetam em nome de uma liberdade da qual, provavelmente, desconhecem completamente – além da liberdade que é dada a todo homem: a de ser ridículo.

Já assisti a certos eventos liberais, já li muitos artigos liberais e já conheci, como dito, muitos liberais. Todos defendem o livre-mercado, o potencial individual etc. Mas de que defendem? De tudo isso que cá está, óbvio! Mas o que cá está? Cá está uma situação onde impera a histeria, o grito, o movimento de massas, a emoção, a irrazoabilidade, o vil, o mau-caratismo... Enfim, cá está uma situação em que não se preza por norma alguma, absolutamente. Entretanto, que fazem os liberais? Presenteiam-nos com argumentos sem fim; com artigos rebuscadíssimos acerca da liberdade para, assim, tentar combater todo esse coletivo decadente. Não faz efeito algum. Tal como há gente enriquecendo em nome das idéias esquerdistas, não me parece que fazem, de fato, muita diferença, os tais liberais, no tocante ao seu liberalismo... A liberdade econômica é só uma conseqüência proveniente de uma moral pré-estabelecida, de valores bem consolidados. Sem isso, ela é impossível e para se ter tal configuração social é necessária uma coisa, exclusiva e impreterivelmente: o fim da liberdade.

A liberdade finda ao se entrar numa sociedade, ao se sincronizar com outrem. Platão, em A República, ilustra muito didaticamente o que faz nascer uma cidade que é a necessidade. Há a necessidade de conforto, atrelada a de riqueza e a muitas outras, mas uma é salutar e primária, que é a sobrevivência. A liberdade, conhecida e dita pelos liberais, é também uma idéia romântica, amoral e que ganha uma forma quando com alguém e outra forma quando com outro alguém. É aquela coisa que tem de ser tudo, ao mesmo tempo em que é nada, para assim tentar agradar a todos. Com efeito, pretende-se uma norma aqui, outra ali: mas nada muito grande, impactante, de valor robusto, que é para não minar os desejos alheios. Se quer conservar a liberdade puramente pela liberdade. Não se almeja conservar valores, condutas e cultura. O que se está em jogo, aqui, entre os liberais, é uma ânsia por uma nova religião, a da liberdade. Liberdade em prol do quê, para tornar livre quem, não se sabe. O que se sabe, é que é bom deixar a porta aberta que, ontologicamente – é claro! – a mão invisível nos traz tudo. Não há como haver civilização alguma mantida a meros preceitos técnicos, que só existem para satisfazer o indivíduo, única e exclusivamente, mas eis que aqui estão os liberais: pioneiros, desbravadores de um novo mundo, um novo homem, uma nova moda: gravatas e manuais de economia para todos.

O liberal quer conservar o livre-mercado, instituições políticas bem definidas para facilitar o mercado; gosta de estabilidade social, para assim o livre-mercado correr bem; pretende consagrar o fim do Estado, para que não haja empecilho ao mercado; deseja, quase que sempre, fazer uma ponte entre livre-mercado e liberdade, sendo ambas as coisas completamente dependentes umas das outras, quando não são. Já comentei aqui: primeiro, antes de tudo, há o fim da liberdade. Em seguida, há o estabelecimento de leis e a garantia de sobrevivência. Após isso, segue-se inúmeras coisas, e depois se chega ao livre-mercado. Bom? Sim. Necessário? Não.

Se se deseja conservar algo, é porque há, em alguma camada mais interna ou externa desse algo, alguma coisa que possui valor em si. Tal idéia me parece há muito ser esquecida pelos liberais. Alguns diriam, “é a liberdade”. Não, não é: a liberdade é um estado, uma circunstância. O que há, é algo metafísico; é uma lei que precede todas as outras e que, de alguma forma, é universal – em medidas e frequências diferentes, é claro, mas universal. Tamanha negligência para com um aspecto fundamental da vida, isso que fazem os liberais, e que está exatamente para além da vida, não os torna muito diferentes de todo o resto que eles acusam: ambos materialistas, ambos decadentes, louvando coisas perecíveis e passageiras; atribuindo valores absolutos a coisas ridículas e secundárias, terciárias, submetendo qualquer significado absoluto à patética vontade individual momentânea.

O liberal tem essa peculiaridade, que foi a que me deu a inspiração para iniciar tal texto; essa peculiaridade que é a de, no lugar de esbravejar, falar manso com a manada; no lugar de ser desleixado, ter modos com a manada; no lugar de ser irracional, presentear os irracionais com livros, enciclopédias sem fim; no lugar de lutar, tentar fazer palestras a fim de mostrar como seus argumentos são superiores – ainda que desconheçam completamente a causa real... Ah, o liberal... Ele é um mártir de  uma coisa que, se muito, é designada como “liberdade” e que, talvez por afinidade sonora, haja certo séqüito para aquele que a proclama... Mas que liberdade, liberdade a quê, liberdade a quem? Liberdade a quem quer destruir a sua liberdade? Liberdade a quem quer profanar a sua sociedade? Liberdade àquele ignora completamente qualquer juízo de valor e ignora também a vida humana em prol de uma idéia, causa? E, a propósito, os liberais não parecem fazer isso também?

De poucas coisas eu tenho certeza nessa vida, mas uma delas é que o que se quer que deseje conservar, de fato, vale a pena dar sua vida para tal coisa e, assim, abrir mão de qualquer civilidade para com o inimigo. Não se está apto à idéia alguma aquele que não está apto a zelá-la mais que a si, pois sua vida entraria em completo fim sem a ciência de que há algo muito maior que si mesmo. De modo que é tempo de abandonar os livros, os bons modos, as gravatas e o liberalismo, essa eterna passividade, condenada a um museu de comédia por tentar atribuir ao espaço vazio o fantástico significado que é o da “liberdade”.


domingo, 21 de abril de 2013

Falemos sobre o racismo


Antes de tudo, é mister observar o “antes, durante e depois” no tocante ao racismo e às idéias similares. Vamos a isso, então.

Sendo bastante categórico, posso afirmar que as idéias de que o negro fosse uma espécie inferior só surgiram após o iluminismo e a famigerada Revolução Científica. O descompromisso para com os povos de além-mar, promovido pelos ibéricos, não era nada além de um "desprezo" para com uma outra cultura – e não um "desprezo" para com uma cultura em especial, ou um grupo étnico em especial. Ainda assim, é notório reafirmar o que já se sabe: negros escravizam negros, e, para eles, isso sempre fora natural. É verdade que o negro se tornou mercadoria doravante no mundo ocidental. Mas cabe aqui pontuar duas coisas: o negro era uma mercadoria, mas também era um investimento. Pesa-me pensar que açoites eram naturais, e sadismos no mundo ocidental existisse a toda. Não me parece razoável danificar um investimento assim, de modo tão banal e doentio. É-me razoável pensar na escravidão moderna como um vício de uma cultura inferior que contaminou uma cultura superior – há muito já distanciada de uma conduta tão desumana , posto que a única cultura e povo que se permitiu uma auto-crítica e reflexão sobre seus atos fora essa, a nossa. Não me parece que os negros se permitiam questionar a escravidão e a submissão hedionda que infligiam uns aos outros – que nada lhes valiam, já que sua produção já era garantida e escassa. Na realidade, a inutilidade do negro dentro de inúmeras tribos africanas só contribuía para negligência e crueldade para com eles. O fato é que os negros se escravizaram por séculos, bem como os islâmicos – onde até hoje não houve auto-crítica alguma. E não me parece que haveria auto-crítica dos povos negros sobre si mesmos – vide o Sudão atual – , assim como não havia entre os astecas ao promover sacrifícios infindos. De modo que há de se tirar o chapéu para a cultura ocidental, cristã. 
Posto tudo isso, cabe-me refletir de modo mais profundo a questão racial e o racismo no Brasil – sem querer bater o martelo e afirmar que existe ou que não existe tal fenômeno.

A identidade do negro parece-me, sobretudo, uma das coisas mais artificiais que existe: uma mistura de ritos, condutas e folclore de inúmeros povos africanos, cujos registros e essência se perderam há muito e que, não raro, são provenientes de origens díspares. A identidade negra, em que tenta sustentar-se o movimento negro, é forçosa e frágil. É uma cultura de aspectos, que visa o parecer – com finalidades infindas – e não o ser. No mais, não se distancia tanto da cultura racista, que prioriza uma análise superficial para julgar outrem. Assim que, se for para condenar uma das duas, que se condenem as duas, pois se sustentam em mesma complacência fetichista e vulgar, que é a da aparência.

É indissociável o racismo de uma cultura cujos valores se sustentam no parecer, e não no indivíduo em questão. O racismo jorra quando se é evocado, e quando também se pretende evocar. É um equívoco grave, porque é um julgamento de um indivíduo que se sustenta num coletivo, num estereótipo. E é aí, também, onde reside uma de minhas grandes críticas ao movimento negro: a idéia de massa. Penso que movimento algum possa representar o indivíduo completamente, de fato. Há uma parte substancial e definitiva do homem que está condenada à solidão: a sorrir só e a sofrer só. Os movimentos de massa, a coletivização de dores, a reivindicação de direitos para uma parcela, se perde entre as lideranças que puxam as rédeas para manobras políticas, e nunca chegam ao indivíduo. E por que não chegam? Porque jamais poderiam realmente chegar. O homem tem de se projetar para frente da sociedade, a fim de não ser esmagado por ela e, ao mesmo tempo, triunfar sobre ela. Aliás, boa parte de homens admiráveis foram oriundos de ambientes perversos e de circunstâncias nefandas. Cismo, cá comigo, que o sofrimento seja uma das vias de ascensão espiritual mais eficaz... A questão é que Machado de Assis triunfou numa sociedade repleta de idiossincrasias mesquinhas e vãs. E não me parece que ele teve tanto ou mais trabalho que um Beethoven, ou um Pelé ou um Santo Agostinho e até mesmo Jesus Cristo – isso só para citar por cima.

Por fim, uma das coisas mais irônicas e curiosas de todo "esse agora", é que se apresenta o Brasil como conhecido pelo samba e Pelé – o que é verdade –, coisas genuinamente "negras", mas que parecem ter sido incorporadas por uma "burguesia-leviatã" que a tudo transforma em produto e que as consumiu – mas sem dividir o “lugar ao sol”. O que me ocorre, com todo esse "resgate" de movimentos de minorias, de teses entupindo faculdades sobre o assunto, é que a história irá se repetir, somente. Assim segue.  

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Igreja Machista


A fidelidade exprime a constância em manter a palavra dada. Deus é fiel. O sacramento do Matrimônio faz o homem e a mulher entrarem na fidelidade de Cristo à sua Igreja. Pela castidade conjugal, eles testemunham este mistério perante o mundo.
S. João Crisóstomo sugere aos homens recém-casados que falem assim à sua esposa:
"Tomei-te em meus braços, amo-te, prefiro-te à minha própria vida. Porque a vida presente não é nada, e o meu sonho mais ardente é passá-la contigo, de maneira que estejamos certos de não sermos separados na vida futura que nos está reservada... Ponho teu amor acima de tudo, e nada me seria mais penoso que não ter os mesmos pensamentos que tu tens".

2365 -- Catecismo da Igreja Católica

quinta-feira, 28 de março de 2013

Religião e Política

"Mas religião e política não se devem misturar. Partido político não pode ter bandeira religiosa", gritam as vozes sem rosto da modernidade inconsciente.


Eis que, vindas do nada, como um imperceptível sussurro, outras vozes dizem...



"Muito pelo contrário, partido político pode e deve ter influência teórica de valores referidos à religião, seja qual for a referência. O problema é que tem-se criado no Brasil esse esquema ditatorial onde apenas um posicionamento religioso pode ser representado: o ateísmo. O ideal da democracia é que - considerando que a opinião de cada homem é importante - cada um encontre pessoas que representem suas opiniões na política de forma tão simétrica quanto possível. E de onde vêm essas opiniões? Vêm de toda a formação cultural, emocional e mental do sujeito. Parte dessa formação, inevitavelmente, encontra e se mistura com as respostas que cada um encontra diante do movimento natural da vida humana de se perguntar o que há além, qual a origem comum de tudo, qual modelo de ação representa o sumo bem etc. Dizer que política não pode se misturar com religião é como dizer tuas opiniões importam, Pessoa, menos aquelas motivadas pelo que você estudou na faculdade, ou menos aquelas motivadas pelos teus sentimentos de perigo, ou qualquer outra coisa. Resultado: quem quer que você "escolha" após essa mutilação moral, não será alguém que lhe representa de forma simétrica. Morre a democracia. 


Além disso, as opiniões devem ser ouvidas sem que se selecione de onde vêm (a menos que venham de suborno). Isso daí é parte da vida pessoal de cada um, onde o Estado não deveria intervir. Se um conjunto de opiniões representadas vence eleições e ganha representação, não interessa as motivações abstratas de cada votante. O governo deve representar o homem e, infelizmente, o homem pensa na transcendência, no conceito de bem e em seres elevados. Esse pessoal gayzista devia simplesmente aceitar as escolhas da maioria. Se começarem a selecionar QUANDO as regras do jogo contam, o lindo e maravilhoso respeito às minorias vai simplesmente virar governo das minorias: ditadura" 


Mas as vozes sem rosto concordam "em parte", e põem-se a proclamar que, "Como pode um pastor ter poder político, qualquer que seja? Do jeito em que vamos, logo deixaremos de ser um gracioso Estado Laico!". E voltam, de algum lugar, as vozes de uns poucos, as vozes outras, as vozes que sussurram... 


"O movimento cristão organizado não mostrou até agora nenhuma, nenhuma, tendência à abolição do laicismo em si. Esse momento histórico 'tá disfarçadamente construindo um verdadeiro Estado Ateu, no velho perfil comunista, sob a máscara bonitinha de "laico". Que eu lembrasse, um estado laico seria aquele onde não haveria uma religião oficial impositiva, ou seja, ou seria sem religião oficial, ou teria uma religião oficial (refletindo a maioria da população, ou o histórico de fundação do país) ao mesmo tempo em que respeitaria as liberdades individuais de prática de religiões diferentes da majoritária. Isso é um saudável laicismo onde as pessoas vão às urnas motivadas por seus valores individuais e escolhem a forma de representação, podendo - de forma legítima - acontecer a coincidência de, sendo a maioria budista, aprovarem leis de silêncio meditativo ou, sendo a maioria atéia, aprovarem aborto, drogas, e outras tantas porras SEM que se obrigue ninguém a aderir a esses valores na vida pessoal. Já na vida pública, quando se lida com milhares de pessoas, algumas sempre saem descontentes. É melhor que sejam em menor número possível: as minorias (que na individualidade não serão invadidas). A única coisa que a militância cristã tem feito é lutar legislativamente contra aborto, eutanásia, maconhagem etc. Ou seja, está usando de um instrumento legítimo da democracia. Repare que não estão pedindo que ateus sejam proibidos de votar, não estão pedindo que a eleição de um muçulmano seja anulada, quando ele vence alguma eleição (como tão a fazer com Feliciano). Tão apenas representando seus valores e buscando nos votos do povo apoio pra eles. Já essa militância gayzista, não tendo maioria legislativa, carrega a política de controle da vida pública através dessa seleção ABSURDA de quais valores são válidos ou inválidos para a motivação de votos (que falei na primeira resposta), como se eles tivessem a Sabedoria Supraterrena. Logo, 'tão cada vez mais a controlar a vida pública, e de forma ilegítima. Só que vão além disso: não contentes em terem esse controle imoral da vida pública, avançam sobre a vida privada dos cidadãos (fronteira que um PSC nunca cruzou). Você não viu a proposta de lei do esquizofrênico do Jean Wyllys, pedindo um marco regulatório da internet? Tem também essa absurda proposta de lei de homofobia, que proíbe meros discursos públicos contrários ao movimento gay, jogando em palavras (tendo elas ou não apelo de violência) a culpa por esse ilusório "genocídio" de gays que alegam (isso, claro, além do outro absurdo da vida pública de criar uma casta de seres superiores, cujo espancamento, por exemplo, cometido contra eles representará DOIS crimes (agressão física e homofobia), enquanto que agressões aos demais, aos reles mortais, representarão apenas UMA infração.








Os sussurros dessas poucas vozes que se conservam sãs em meio à loucura e à degradação do momento têm a Verdade e Deus ao seu lado. Mesmo sem o esforço vocal, serão sempre Gritos. Gritos de socorro para a mente humana e para os valores atemporais.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Pelo fim da ciência como coisa decisiva



Para os céticos, o mundo é completamente cognoscível, crível e conhecido. Mas é um mundo do tamanho de uma mão.

Muito provavelmente não é essa ou aquela religião que te leva a Deus. Todas te levam, de alguma maneira. Umas são mais primitivas, se se deseja analisar a coisa sem temer taxações delirantes de etnocentrismo, mas, no fim, todas apontam à mesma coisa. O caso é que se ''caíste'' aqui, no ocidente, por que te tornares hindu ou coisa do tipo? A religião é uma compreensão cultural de um povo. Ela nasce de uma comunidade. A ela precede uma infinidade de mitos, objetos e acontecimentos. E ela os conserva, pois os racionaliza – sim, racionaliza – e os dá resguardo.

Pode parecer provincianismo, mas de todas as crenças (incluindo o materialismo ateu também), não há doutrina mais perfeita que a cristã – para tal afirmação cabe somente algumas leituras sobre a História da Igreja. Assim, se te apetece duvidar, duvide. Mas vais ficar como um cachorro atrás do rabo sem ir a canto algum. É um suicídio tudo isso.

Podes, é verdade, indagar o cristianismo, a ponto de negá-lo: isso é crível, podes fazê-lo, sem dúvida. Mas que irás colocar como substituto? Outra fé? A ciência, que não profere, sendo muito otimista, nada além de um recorte da realidade? Se o homem vive é porque crê em algo e de algum modo lhe é importante viver. A perspectiva cristã da vida é de longe a mais completa. Um exemplo disso é o fato de seu alcance, longevidade e contribuições ao mundo. Mas certo, diga-se que se quer ser cético. A que isso te leva? À loucura, ao delírio, a um mundo multidimensional onde tudo pode ser certo, ao passo que tudo não é certo; a um bacanal de perspectivas inúteis que só te serão úteis para não pensares em tuas falhas – o velho comodismo. A razão sem fé é inútil. Você vai sempre chegar a uma pergunta sem resposta, analise o que quiser: do comportamento de uma formiga, ao cosmos. A ciência tem a pretensão de saber o infinito, ainda que seja completamente inútil, pois o ente é extremamente perecível, passageiro e frágil. E, dessa maneira, só comprova a vaidade e a pequenez de quem se guia pela ciência só e somente.

As pessoas negligenciam uma coisa muito importante, ao tratar de tais temas: a confiança. O cristianismo clama para que possuamos isso. Todo o mundo, toda a sociedade, está assentado sobre uma camada enorme de confiança alheia e se sustenta com isso também – ou ainda: tudo se baseia em evidências, a priori, que são inquestionáveis, até mesmo a ciência (especialmente a ciência, aliás!). Como só a ciência poderá me tranquilizar  através de sua sistematização do mundo e de seu empirismo quase que irreal (vide as condições criadas que são completamente anti-naturais para provar teorias científicas), de que se eu jogar algo no chão ele irá cair? Pode-se juntar infindos documentos provando que isso já aconteceu e que tende a acontecer de novo, mas não prova que tornará a acontecer. Vê? O ceticismo é um cárcere.

Todas as coisas mais salutares, que fazem ser o que somos, nunca poderão ser quantificadas ou conceituadas e, por tabela, abarcadas por uma ciência ou um mecanismo qualquer. A ciência, só, é uma demente, uma aleijada.

A religião não peca ao exaltar a Revelação. A religião, na realidade, tem é um grande mérito ao evocar a Revelação – se é que se pode dissociar ambas as coisas . O pecado aqui é a vaidade que jorra aos montes no mundo de hoje, em pleno vapor, gritando para todos ouvirem, abafando todo e qualquer outro som, tentando estar além do bem e do mal para evitar a complexidade e a nobreza de uma auto-reflexão.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Considerações sobre o Bhagavad-Gita



1.     O homem deve agir conforme a necessidade da circunstância. Deve agir de modo indiferente aos frutos; agir com total desapego à conseqüência e às benesses de seu esforço. O homem que age pensando na boa colheita e no que desfrutará, corrompe-se, porque toda a sua ação perde a substância e assim ele tende a cair em vícios e perder-se hoje porque pensa no amanhã.
2.     Nada mais empurra o homem à corrupção e à maldade do que o desejo e a ira. A empreitada humana, executada por uma idéia de que ela irá retornar como uma boa colheita, é egoísmo e fraqueza. É como se dissipássemos a energia do “fazer agora” por ficarmos regozijando o que pode estar por vir depois.
3.     O desejo ofusca a boa intenção e nos confunde no presente, no “agora da ação”. Devemos nos ater àquilo que deve ser feito, porque as benesses da justiça não são só uma reação à ação de hoje, mas também uma ressonância de nossa ação, só que proveniente de uma outra extensão de nosso ser e/ou uma ação de outro ser. O mundo é ação.
4.     Fraquejar diante de adversidades e dilemas por temer executar uma determinada tarefa não te salvará do fracasso, afinal a não-execução de uma determinada coisa é, ao mesmo tempo, a execução de outra. A hesitação sempre vem do medo pelo depois e é aqui que temos de retroagir ao fato de simplesmente fazer e ponto final. Fazer o que tem de ser feito; combater o nosso medo e também a alegria; ter uma temperança extrema, um equilíbrio mórbido.
5.     Também se deve levar em consideração o conceito do Yajna (sacrifício) no qual explica que todo ganho desse e nesse mundo deve ser uma compensação por algo, por um esforço, mesmo que de maneira indiferente – afinal o desapego numa ação consiste num trabalho mental bastante elevado. Aqueles que nada sacrificam mas a tudo usufruem são fracos de espírito, não se elevam. É como se apropriarem de algo indigno a eles...
6.     Há o corpo, mas também os sentidos. Superior a eles há a razão, e a ela há o Atman (alma), centelha do Deus. Dessa maneira, controlando o Atman, ordenamos bem a razão, que ordena os sentidos e que, por sua vez, ordena o corpo: o meio pelo qual se faz o que se deve fazer.
7.     Deus não há forma e tampouco é algo palpável, mas se utiliza de algo concreto para ordenar o mundo: como o sol, para fazer o dia e a lua compondo a noite. Dessa maneira, percebemos a regularidade das coisas. Para entrarmos em harmonia, então, devemos também ser regulares conosco ao máximo. Assim trabalhos o nosso Ser e ele é a essência de todo o resto.
8.     A verdade e os valores sempre prevalecem pois são intrínsecos ao espírito. Seu antônimo, a bestialidade, a desonra e o mal, não, pois não são coisas independentes e não podem existir por si mesmas. Aquele que distingue o bem do mal, ao pé da letra, é o homem sem interesse, sem a vontade de espiar o futuro – o mal é simplesmente a ausência.
9.     O autocontrole é o meio pelo qual se consegue Ser.
10. Não há nada sem sacrifício; não pode haver nada sem sacrifício. Ele legitima o sucesso, o sabor. É a compensação pelo sorriso e pelo esforço; por todas as forças intelectuais, físicas e espirituais suas que travaram entre si conflitos e ascenderam ao mesmo tempo. O equilíbrio, portanto, faz-se mais do que necessário. É também importante o conhecimento, o Jnana, que é aquela percepção além do intelecto; um saber que parte do espírito e não do mero raciocínio e da mera lógica humana.
11. Todos os esforços desembocam em mesmo lugar; todas as ações findam em um mesmo ponto. A questão não é onde chegar, mas sim como chegar. O homem cria esse caminho à medida que se esforça para alcançar o que se almeja: essa espécie de perfeição, essa espécie de completude. O esforço forja o bom caminho. A negligência é uma desonra para com seu espírito, fragmento de um outro maior, soberano e essência de todos. O homem deve se empenhar em tudo o que se propõe, sempre. 


terça-feira, 5 de março de 2013

Deus

(ler em voz alta)


Deus


Ó Meu Deus, que bem, que graça és Tu,
Que me permitiu viver e, sobretudo, morrer.
Levanta-me em Teus braços, tal como vim: só nu.
Para assim contemplar-Te sem a nada temer.

Tua luz, o Teu Ser, é o único guia.
Vejo-Te sempre, em cada o momento,
Sorrindo para mim, que tanto temia,
Esse mundo todo agourento.

O espírito para Ti sempre vai.
É uma natural vocação:
- O filho anseia pelo colo do Pai;
O imperfeito pela Perfeição.

Que não esqueçamos de Tua arte;
Que lembremo-nos sempre a nós:
Somos, por ora, só mera parte,
Enquanto não deitar em Vós.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Contraste dos democratas


Frequentemente exprimo opiniões um tanto quanto anti-democráticas. Em recente ocasião discutia sobre o sufrágio universal e a tristeza que isso nos legou em todos os sentidos – afinal, as pessoas, em geral, não têm a mínima capacidade de discernir. O sujeito disse que todos devem poder votar, até porque todos pagam impostos. Rebati dizendo que você pode interferir na política indiretamente também e que o voto não é a única forma de fazer tal coisa. A outra pessoa começou com um discurso do quão autoritário eu parecia, e do quão eu podia estar fomentando um totalitarismo em breve, ao mesmo tempo em que dizia que eu era presunçoso quando julgava a "incapacidade" dos demais. Seguiu dizendo que o meu ponto de vista era muito ultrapassado e que eu deveria ser menos intolerante. Fiquei escutando tudo com muita atenção e até lustrando certos adjetivos pejorativos que lançava sobre mim. Por fim, respondi que mesmo eu sendo para ele uma pessoa intolerante, peremptória, equivocada etc., nesse nosso sistema, o meu "poder político" valia o mesmo que o dele. Assim se calou.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Apeirokalia - Olavo de Carvalho

(...)
"O impedimento a que me refiro não é material ou quantificável. O IBGE não o inclui em seus cálculos e o Ministério da Educação o ignora por completo. No entanto ele existe, tem nome e é conhecido há mais de dois milênios. A mente treinada reconhece sua presença de imediato, numa percepção intuitiva tão simples quanto a da diferença entre o dia e a noite.

Os gregos chamavam-no apeirokalia. Quer dizer simplesmente "falta de experiência das coisas mais belas". Sob esse termo, entendia-se que o indivíduo que fosse privado, durante as etapas decisivas de sua formação, de certas experiências interiores que despertassem nele a ânsia do belo, do bem e do verdadeiro, jamais poderia compreender as conversações dos sábios, por mais que se adestrasse nas ciências, nas letras e na retórica. Platão diria que esse homem é o prisioneiro da caverna. Aristóteles, em linguagem mais técnica, dizia que os ritos não têm por finalidade transmitir aos homens um ensinamento definido, mas deixar em suas almas uma profunda impressão. Quem conhece a importância decisiva que Aristóteles atribui às impressões imaginativas, entende a gravidade extrema do que ele quer dizer: essas impressões profundas exercem na alma um impacto iluminante e estruturador. Na ausência delas, a inteligência fica patinando em falso sobre a multidão dos dados sensíveis, sem captar neles o nexo simbólico que, fazendo a ponte entre as abstrações e a realidade, não deixa que nossos raciocínios se dispersem numa combinatória alucinante de silogismos vazios, expressões pedantes da impotência de conhecer.

Mas é claro que as experiências interiores a que Aristóteles se refere não são fornecidas apenas pelos "ritos", no sentido técnico e estrito do termo. O teatro e a poesia também podem abrir as almas a um influxo do alto. À música — a certas músicas — não se pode negar o poder de gerar efeito semelhante. A simples contemplação da natureza, um acaso providencial, ou mesmo, nas almas sensíveis, certos estados de arrebatamento amoroso, quando associados a um forte apelo moral (lembrem-se de Raskolnikov diante de Sônia, em Crime e Castigo), podem colocar a alma numa espécie de êxtase que a liberte da caverna e da apeirokalia.

Porém, com mais probabilidade, as experiências mais intensas que um homem tenha tido ao longo de sua vida serão de índole a desviá-lo do tipo de coisa que Aristóteles tem em vista. Pois o que caracteriza a impressão vivificante que o filósofo menciona é justamente a impossibilidade de separar, no seu conteúdo, a verdade, o bem e a beleza. De Platão a Leibniz, não houve um só filósofo digno do nome que não proclamasse da maneira mais enfática a unidade desses três aspectos do Ser. E aí começa o problema: muitos homens não tiveram jamais alguma experiência na qual o belo, o bem e o verdadeiro não aparecessem separados por abismos intransponíveis. Esses homens são vítimas da apeirokalia — e entre eles contam-se alguns dos mais notórios intelectuais que hoje fazem a cabeça do mundo.''
(...)

Texto na íntegra: http://www.olavodecarvalho.org/livros/apeirokalia.htm 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Sobre o inferno e a condenação do homem



"Por definição, o Inferno é um "estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados" (CIC 1033). Ora, a palavra auto-exclusão não deixa margem para qualquer dúvida: não é Deus quem condena o homem, mas o próprio homem. Mas, como isso ocorre? Para se compreender como o próprio homem pode renegar a comunhão com Deus é preciso entender que ele é totalmente, tragicamente livre. Tão livre que pode, no instante final, virar as costas para Deus."

Esse vídeo retira muitas dúvidas e confusões que fazem acerca do tema. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O grande inimigo


O ato de pensar é um ato solitário. Assim, para escapar do comum, tem de se ficar só. Não que boas idéias não nos cheguem através de uma boa conversa, não é isso. Mas as primordiais coisas que existem não possuem palavras que possibilitem um diálogo salutar. O máximo que se pode conseguir é tirar conclusões daquilo a que se pensa. As questões mais complexas do homem encerram no indivíduo e a fala não foi inventada para si, mas para o coletivo. Talvez uma das coisas mais importantes a ser feitas nos dias de hoje é conservar-se: conservar essa parte nossa original, distinta, ímpar e que não encontra nada que a complete fora de nós mesmos. Não obstante, o mundo, junto a tantos outros homens, trata de nos alienar constantemente. Mas o erro é pensar que o mundo é o grande responsável, porque não é. O nosso grande inimigo é o nosso vício, a nossa frouxidão, o nosso cansaço e todas as faculdades temporais, materiais, que se encontram no outro extremo das questões mais fundamentais. Primeiramente, antes de qualquer coisa, deve-se tomar consciência de suas falhas e não se deixar destruir por si mesmo.

domingo, 20 de janeiro de 2013

A pergunta cínica


“Afinal, o que é certo?” é uma indagação bastante perigosa e que praticamente legitima toda a conduta humana. São Tomás de Aquino, por exemplo, não buscava  somente provar a existência de Deus. Ele se preocupava, também, em tentar demonstrar que a não existência de Deus era algo que beirava ao ridículo e ao absurdo. De maneira muito razoável, assim, ele provava a existência de Deus ao anular a idéia antagônica, a de que Deus não existia. No tocante à pergunta “Afinal, o que é certo?” cabe ridicularizar o seu dono, ou quem dela se utiliza. Não se dá para demonstrar o que é certo, pois não podemos tirar uma amostra do infinito e de tudo o que nos rodeia. Dá para, sim, demonstrar que não haver certo é algo ridículo. Tomemos duas frases: “A razão está morta” e “Não há certo e nem errado”. Todas essas duas frases são um paradoxo lógico absoluto; elas se auto-anulam. A primeira, porque não há como definir a inexistência da razão sem usar da própria faculdade da razão. A segunda, pois relativiza a própria afirmação. Realmente, não posso demonstrar o que é certo e prová-lo. Mas quem pode me provar que não há um carro azul estacionado na esquina? O fato é que estamos tão imersos na Verdade tal qual um peixe está na água, não podendo pensar na realidade, em nossa existência, sem levar esse outro substrato que o compõe. 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Fala-se muito, pensa-se pouco


Há quem fale de racismo, de homofobia, de discriminação sexual, de intolerância religiosa entre outras coisas com boca cheia. Eu vos digo o motivo: essa gente se submete a tantos veículos midiáticos, com tanta informação manipulada – informação essa que nos diz o tempo inteiro as mesmas coisas e nos direcionam para as mesmas conclusões –  que infindas opiniões e perspectivas de mundo são absorvidas sem contestação. A freqüência com que a mídia expõe certos assuntos é tanta, tanta, que jamais poderia ser concebido um equívoco de sua parte ou até mesmo uma mentira de sua parte. Além disso, ela parece, sem sombra de dúvida, expor a opinião da maioria: contestá-la seria uma incrível tolice, além de ser quase criminoso. Mas eis que um dia certa indagação surge, e até se tenta conversar com outro sobre isso, mas o medo do ridículo e de ser mal interpretado é tamanho que a pessoa tende a se calar – sem saber que o outro possui a mesma dúvida. Assim é que se constrói a opinião da maioria: uma grande manipulação, através de uma profunda criação que nos visa impor medos e receios para que sejamos inertes e coniventes com a dança de hoje e as políticas do absurdo. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A Patológica Mentalidade Esquerdista e a Terapia da Verborréia Ativista


Que pícaro! Dois seres, ''duas coisas'', se acusando disso e daquilo; de traições das mais vis para com os seus e com o próprio movimento; cada um achando que representa a esquerda, o marxismo, quando não! Nenhum deles, somente, representa o marxismo e a esquerdalha: ambos a representam! É essa a natureza de uma ideologia doente, em todos os sentidos, e ela é sempre aludida com veracidade quando encontramos dois de seus simpatizantes em atrito mútuo. É a ideologia do absurdo, do escárnio, da vilania e da megalomania. E cada qual tem sua razão lá de se sentirem represantes, óbvio! Afinal, cada um desses infelizes carrega a pretensão de sê-lo. A esquerda é bem isso: uma coisa completamente indefinida, inconclusiva, sem resguardo sólido e objetivo algum, acabando por atender a qualquer fetichezinho adolescente que se apóia numa ilusão e grita contra vilões outros – sem se dar conta que são eles, estes, o próprio mal.

O PRINT EM ALTO ZOOM: http://img850.imageshack.us/img850/6338/discusso.png





segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Só propaganda


Certas vezes, quando afirmo categoricamente algo em público, ou quando defendo essa ou aquela opinião, alguém vem com o discurso sobre o que é certo e errado, tentando, dessa maneira, rebater meu ponto de vista. Em geral isso acontece com pessoas de cunho ideológico esquerdista, ou libertário, ou simplesmente de cunho “liberal-moderado”. O engraçado nessa visão de mundo de “deixai cada qual com sua vida” é que as pessoas que a pregam não percebem que isso está dentro do próprio jugo moral que tanto tentam repudiar. Assim, um esquerdista busca “justiça”, acima de tudo, achando que isso é bom; assim, um libertário acha que o respeito aos “impulsos naturais”, quaisquer que sejam, é algo bom; assim, o “liberal moderado” acha que a tolerância é boa. Não há como escapar.

sábado, 12 de janeiro de 2013


Sê homem! Não fuja de teus deveres! Não te negues! Supera-te!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Triste hoje; pior o amanhã.


A modernidade vem com a promessa de nos libertar das algemas de séculos. Algemas essas provenientes de um passado longínquo, antiquado, opressor, destrutivo e decadente. Hoje se clama a liberdade e a total obediência a si, aos seus instintos, sem noção do que se de fato está ficando livre e sob quais valores hão de triunfar os instintos e a vontade do homem. Parece-me que a modernidade está ociosa e paranóica. A liberdade virou um fetiche, e o querer uma justificativa. Está-se livre para tudo, dizem eles, sem atentar para o fato de que estão acorrentados a uma outra perspectiva somente; está-se apto para tudo, dizem eles também, sem se darem conta de que o instinto não possui significado algum, senão o de uma reação cuja causa nós desconhecemos. Mas a desmascaro aqui, essa modernidade doente: até que ponto é razoável pensar que sendo os impulsos humanos mais básicos – e nessa lógica absurda os mais valorosos – devem ser seguidos ao pé da letra, afinal não teriam sido esses mesmos impulsos que nos escravizara? O que quero atentar aqui é para o fato de que a causa e o efeito não podem ser a mesma coisa, como bem nos ensina a lógica. Se o homem de ontem era isso ou aquilo, não o foi em outra circunstância que não na qual em que o seu também instinto existia, bem como a todos os anseios naturais. É absurda a tentativa de glorificar o homem e o seu lado mais animal para correr das más coisas, se estas foram também fruto dos instintos e da bestialidade nossa de outros tempos. A modernidade não nos pode prometer nada sem também acorrentar-nos. Diante da infinidade do universo e a imensa complexidade de um indivíduo, todas as alternativas à moral prática e ao bom senso universal e atemporal, conduzir-nos-á a uma escravidão sem precedentes. Seremos servos da vontade de todos, submetidos à liberdade eterna que só pode ser conhecida quando a nada se escolhe e a nada se faz.