quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Não temer

Hoje me dediquei a um pequeno exercício: refleti sobre onde deixamos o nosso cadáver. Pois não, cadáver! Tem de se ser muito ingênuo para acreditar que ainda estamos vivos... Morremos junto dos últimos grandes homens que se permitiam ousar a sonhar, a desafiar o comum, a triunfar sobre o ordinário – contínua e incansavelmente. Toda a História do mundo repousa um pouco em Aristóteles e também em Napoleão. Morríamos, é verdade, desde sempre, mas ainda conversávamos o infinito em nós... Hoje já não mais. A chama do gênio, regada nas virtudes, tomada pelo inabarcável desejo de ir adiante, obedecendo nossa gênese natural do Eterno, foi-se. E como se não bastasse ter ido, segue numa morte que também morre em si mesma, pois que o antônimo do Infinito não é o finito, mas o vulgar, o raso, o comum – e não, isto também não tem fim... Que não se entenda, por favor, que se pretende evocar as aventuras do quotidiano para alegar vida – que eu não seja tomado por um tolo juvenil, por Deus! A vida é feita na propulsão espiritual (sem fim) que ascende, incansavelmente, a todo o tempo, desejando descansar –  não sabe ela! – em si mesma. O tempo do Querer se esgotou. Hoje só se faz, segue-se, copia-se, domestica-se, consente-se, cede-se... Mas que erro o meu... Como havíamos de deixar o nosso cadáver?! O cadáver é a única coisa que nos resta! Deixamos foi o nosso espírito! E seguimos deixando-o, em todo o instante em que se teme morrer.

domingo, 6 de outubro de 2013

Ninguém quer saber

Li alguns aforismos do escritor colombiano Nícolas Gomez Dávila ontem. Foi uma maravilha. Seus ensinamentos são tão profundos, tão maciçamente atuais e urgentes, que, no mínimo, dever-se-ia publicar a obra homem em todas as línguas do mundo, até em Urdo.

Mas não posso citá-lo para ninguém. Ai de mim se fizer tal ato ferino. Ninguém o conhece, obviamente. E citá-lo, na visão do brasileiro comum, é pedantismo. Por quê? É a lógica brasileira, ora: não conheço, logo não existe. E ai de quem revelar que esta última frase foi uma paráfrase de Descartes. Chegamos ao fundo do poço, ao pior dos níveis, àquele lugar onde não há mais volta: conhecer é ruim, ser ignorante é bom.

Quando cito algum autor antigo, ou um sábio, duas reações aparecem: ou uma incompreensão ímpar, ou um completo desdém. Na primeira situação, seria até tolerável; mas, infelizmente, a incompreensão, no Brasil, é alimentada pela igual inconsciência das outras pessoas, prontas para cortar qualquer idéia, ponderação, questionamento ou dúvida que você tenha. Este país gerou o incrível paradoxo da dúvida que não move o ser para a resposta. A dúvida é um fim por si só, numa mistura diabólica entre o ceticismo cartesiano e a rigidez kantiana.

A segunda reação, bem mais comum que a primeira, é o total e maciço repúdio, desprezo e ódio aos sábios, sejam antigos ou novos. Ora justificam que os tempos são outros, e isso de nada vale no contexto atual (surpreendentemente, Marx e cia. continuam atualíssimos), ora usam seu próprio umbigo como fonte de referência, bradando aberrações como ''não foi assim comigo, então não corresponde à realidade''. Quando não fazem isso, cometem a pacóvia e insultante atitude de, sim!, clamar que você não sabe de nada, mesmo que eles também não saibam.

Isso revolta qualquer espírito honesto e que queira passar o que se leu. Mortimer Adler dizia que o conhecimento, quando adquirido, espalha-se naturalmente para o mundo, porque já põe o conhecedor na posição de transportador. O educando vira educador, e assim funcionavam as cousas por quase 2500 de humanidade. Mas como propagar conhecimento, quando você não é autorizado a fazer isso? Com essa situação, tudo aponta, pois, para um exílio. Sair daqui é a única solução.

E quanto ao Nícolas Gomez Dávila? Bem, ele continuará desconhecido porque ninguém o quer conhecer. Não é pedante saber das cousas, ora bolas?

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Oración por los caídos

Señor, Dios de los Ejércitos, cuya mano da a los hombres la vida o la muerte, en la victoria o en la derrota.

Acuérdate, Señor, de los que, defendiendo Tu fe, cayeron envueltos con Tu nombre en los campos del honor.

Señor, Dios de los Cielos, esencia de amor y de paz, acuérdate de quienes en la lucha por el triunfo de Tu amor entre los humanos, dejaron sus cuerpos rotos en el camino del martirio, ofreciendo sus vidas con serenidad y resignación.

Señor, Dios de Justicia, principio y fin de todas las cosas, acuérdate de quienes imitaron el sacrificio de Tu Hijo, muerto en la Cruz, por la redención del mundo, ofrendando el sagrado tributo de su juventud generosa, para hacer mejores a los que quedemos.

Señor, Tú que sabes lo efímero de esta vida, bendice los sueños de los que cayeron. Ten en Tu divina presencia a los que tanto te amaron, amando tanto a la Humanidad. Guíalos por Tu Reino para que desde los luceros inspiren nuestros actos y Tu nombre sea bendecido y alabado por los siglos de los siglos. Así sea.

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Gustave Dore -- The Crusaders on the Nile

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Batuque aborígene miserável



A verdadeira apreciação musical foi aniquilada com a chegada dos etnomusicólogos. Quando a importância de uma obra passou a ser depositada não no seu conjunto de criação - sendo este, já desde Aristóteles, o busílis da música -, mas nos seus contextos específicos, criou-se, então, a mescla entre o som e a origem do ser que o emitiu. Ora, a cor, a nacionalidade, o físico e o contexto de um artista só são importantes para abranger uma visão maior da obra. De fato, Beethoven não pode ser compreendido sem se compreender, antes, a Alemanha idealista de Hegel; Chopin sem a Polônia não faz o menor sentido; E Vivaldi sem a Itália e a tradição católica é oco. Mas qual seria a verdadeira influência da minha cor quando toco José Maurício Nunes Garcia? E qual é a real relação entre a minha nacionalidade latino-americana com as minhas interpretações de Astor Piazolla? A ligação que os musicólogos modernos estabelecem entre o contexto do músico e a sua obra é, no mínimo, uma destruição da teoria musical. E é por isso que Adorno e cia., neste impulso maldito de desmerecer a obra clássica, chegam ao máximo da distorção hermenêutica da música: eu toco melhor Heitor Villa-Lobos por ser brasileiro. É tanto charlatanismo que dá dó (menor sustenido com sétima, pois é atonal e ''verdadeiro'', segundo o frankfurtiano).

sábado, 7 de setembro de 2013

Modern day students



Três tipos de estudantes dominam as universidades e escolas atualmente: o sério, o perdido e o desinteressado. Quando falo em estudante sério, refiro-me àquele que é ávido por conhecimento, não importa de que tipo e, percebendo que algumas matérias são indispensáveis e obrigatórias, o próprio condiciona seu interesse e seu espírito para compreendê-las, fazendo do professor não um mestre, mas um companheiro na busca pela verdade. Existem, também, os alunos perdidos, que nada sabem, mas têm uma alma honesta e uma busca verdadeira pelo saber, e que, para tal objetivo, precisam de um líder, um guia, um sábio que os ensine (ou seja, o professor). E finalmente, para coroar a desgraça educacional de hoje em dia com espinhos de ouro, existem os desinteressados, filhinhos de papai, totalmente alheios à unidade do real, que mais estão lá, dentro das decantes universidades e escolas, para adquirirem um meio mesquinho de obter dinheiro, ou para agradar o grupo familiar. O tipo dominante de estudante, hoje em dia, infelizmente, pertence à terceira categoria. 

Não é preciso ser cientista político para concluir que, com o advento da pedagogia social, a primeira classe de estudantes tem sido extinta. O aluno que cultiva o saber, hodiernamente, está nas adjacências mais obscuras das escolas e universidades, tendo seus objetivos desencorajados ou deturpados pelo establishment educativo, fazendo com que a educação vire uma espécie de troca mecânica de métodos, uma forma de repetição orangotânica, que, disfarçada de ''rigor acadêmico'', mostra-se, na verdade, como uma destruidora de qualquer atividade útil.

Junto a isso, a quantidade de alunos vagabundos só aumenta a cada dia. Com a perspectiva doentia do ''no child left behind'' (crianças mesmo, pois 90% dos estudantes universitários beiram a infantilidade maternal), qualquer governo atual pensa que é sua obrigação colocar todas as pessoas numa universidade. E o resultado disso não poderia ser outro: pessoas incapacitadas para cargos de extrema necessidade social. Economistas pobres, médicos que não se cuidam, professores que não sabem aprender (nem ensinar) e escritores que não sabem sua língua natal são apenas algumas das aberrações que ocupam as altas esferas de trabalho. 

Sentados no canto fundo da sala, por medo ou timidez, estão (provavelmente escondidos ou calados), por fim, os alunos de cabeças frescas, honestos e abertos a todo tipo de doutrinação. Estes são os mais injustiçados do processo inteiro. Vítimas de uma geração já moldada nos preceitos piagetianos-freirianos, tais pobres almas já recebem uma tonelada de informações esquerdistas unilaterais, prontas para serem repetidas a qualquer momento, apenas para agradar o digníssimo magistério. Não mais o professor deve ensinar os alunos a cultivarem a sabedoria, a amarem as matérias; deve, na verdade, espalhar o assunto de forma aleatória, deixando mais dúvidas que respostas, podando todo tipo de pensamento contrário à sua autoridade de ''mestre'', negando peremptoriamente qualquer resposta aos mais simples questionamentos. 

Só se pode deduzir, em meio de tais condições educativas, que os professores, alunos de outrora, não estão, de maneira alguma, exercendo o verdadeiro ensino, tampouco estão cientes das sua próprias falhas como educadores. O verdadeiro mestre não demonstra sua matéria apenas; ensina, também, a cultivá-la, a amá-la; ensina o aluno a associá-la com a realidade, forçando-o a gostar de cada pormenor que determinado tópico demande, cumprindo, pois, o real objetivo da aulética: colocar no estudante o verdadeiro desejo pelo conhecimento.  

''Colocar? Forçar? Incrustar gostos em outras pessoas? Mas que coisa mais conservadora, antiquada e reacionária'', alguns dirão, com sede de enfiar seu ativismo político na área pedagógica. Não! Nada há de ''reacionário'' em cultivar a sabedoria em mentes perdidas. Há, na verdade, uma obrigação, um dever por parte do professor, que consiste exatamente na conversão do conhecimento em algo que eleve o espírito, que seja útil à alma humana, fazendo com que tal assunto seja de real importância para o educando, e não uma simples cadeira universitária ou escolar obrigatória. E para isso não há técnica. Há de se criar, na verdade, uma organização de educadores menos preocupados com ''o mundo melhor'', e mais focada em deixar pessoas melhores para o mesmo mundo de sempre. Quem sabe assim, quiçá, no futuro, o número de estudantes desinteressados seja, pelo menos, menor que a quantidade já escassa de alunos sérios.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Pensamento de caixa


É comum entre os intelectuais modernos o hábito de procurar os erros e acertos quando lêem Aristóteles e Platão, podando os cons e destacando os prós. Desde que Marx lançou essa moda, interpretando Hegel de cabeça para baixo, virou costume adequar os escritos antigos à ideologia particular do cidadão. Mas isto não é filosofia. Faz parte da tradição filosófica transportar as palavras antigas, atualizando-as, tirando delas a poeira deixada pelo tempo. Foi isso que Santo Tomás de Aquino e Avicena fizeram quando colocaram suas mãos nos textos aristotélicos, incorporando-os em seus respectivos contextos, sem alterar, no entanto, os dizeres clássicos de maneira perversa ou adaptativa. Porém, a deturpação ideológica é tão maciça, tão esmagadora e dominante, que não há mais quem não altere Aristóteles para todos os fins (políticos, econômicos, partidários, culturais, e até sexuais). Essa tentativa pacóvia de mudar o passado resulta naquilo que Mortimer Adler dizia (e temia): ''estão lendo tão errado que é o mesmo que não lerem''. É preciso um filósofo para transpor outro filósofo, e não é qualquer pessoa que faz isso.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Chamado à guerra

O tempo de hoje é o tempo das massas. E as massas a tudo estão a destruir – em esfera micro e macroscópica; rápida ou lenta e dolorosamente. Não ser esmagado pela mediocridade, nem se deixar cooptar por ela, carece enfatizar o eu individual, clamando num campo espiritual, atravessando a tudo, permanecendo após todos, resgatando assim o ímpeto que verdadeiramente construiu a História e fez a humanidade. É essa, pois, a única maneira de não se deixar confundir pela corrente que iguala tudo a uma mesma e torpe coisa. São essas, então, as opções de hoje: ou ser quem, de fato, deves ser, com toda a força, de todas as formas, ou não ser nada.