Não conheço ninguém que se deixaria morrer pelo livre-mercado, mas conheço muita gente que se deixaria morrer pela família, por amor, por Deus, por lealdade... A negligência para com tais valores, crenças e sentimentos é a grande vilã que deixou a direita morrer. A técnica não é o suficiente no campo ideológico. Na realidade, talvez seja uma coisa extremamente secundária. O ceticismo no qual mergulhou a direita, -- podada, submissa e cheia de modos desnecessários, prezando antes de mais nada e, ao mesmo tempo, depois de tudo, a mera técnica -- é também o seu fracasso. A dissociação da vida prática com o seu substrato metafísico e essencial a matou. E agora nos mata a todos.
domingo, 15 de dezembro de 2013
sábado, 30 de novembro de 2013
''Yo, un Irresponsable''
Este portentoso irresponsável que vos fala, voltando de uma compra de livros, se deparou com uma situação inusitada: a família fazia um fuzuê acerca de um portão quebrado. É um portão já velho, enferrujado, todo oxidado pela maresia. Num país normal, alguém chamaria um empreiteiro que manja dessas artes de portão, e ele o consertaria sem problemas; mas não é o caso no Brasil.
Aqui, problemas pequenos, insignificantes, viram verdadeiras epopéias homéricas. Meu pai gritando, minhas irmãs gritando, tios e tias opinando. Parecia uma festa de Calígula, só que sem a putaria.
E eu, o irresponsável, prontifiquei-me a chamar um desses manjadores de portão, para ele manjá-lo, e consertá-lo de vez. Não me estressei, fiquei calmo, não levantei a voz, e resolvi a cousa em menos de cinco minutos. Quem foi o irresponsável da história? Sim: eu, é claro. A responsabilidade foi totalmente invertida neste país: é responsável que se estressa para resolver algum problema, e não quem de fato o resolve.
Mas vá lá. Que eu seja vagabundo mesmo, comprando meus livros, e resolvendo o que nenhum responsável faz.
Aqui, problemas pequenos, insignificantes, viram verdadeiras epopéias homéricas. Meu pai gritando, minhas irmãs gritando, tios e tias opinando. Parecia uma festa de Calígula, só que sem a putaria.
E eu, o irresponsável, prontifiquei-me a chamar um desses manjadores de portão, para ele manjá-lo, e consertá-lo de vez. Não me estressei, fiquei calmo, não levantei a voz, e resolvi a cousa em menos de cinco minutos. Quem foi o irresponsável da história? Sim: eu, é claro. A responsabilidade foi totalmente invertida neste país: é responsável que se estressa para resolver algum problema, e não quem de fato o resolve.
Mas vá lá. Que eu seja vagabundo mesmo, comprando meus livros, e resolvendo o que nenhum responsável faz.
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
"Os
lobos, descontentes da vida que levavam, resolveram reconstruir a sua ordem
social.
—
Imitemos as abelhas! — Propôs um.
—
Melhor, as térmitas! — Propôs outro.
Depois
de muitos debates, a maioria convenceu-se que a ordem estabelecida pelas
abelhas seria a que melhor se coadunaria aos lobos.
Antes
de pôr em votação, um velho lobo, pedindo a palavra, disse:
— As
razoes da proposta são inegavelmente interessantes e ponderadas. Que tenha
servido para abelhas e térmitas, compreendo. Que venha a servir para lobos é o
que duvido, pela simples razão de lobos serem lobos, e não abelhas nem térmitas.
E, por outro lado, deixai-me ao menos por uma pequena dose de pessimismo
lupino: depois de milênios e milênios, os lobos volvem para os insetos em busca
de construções sociais... Será que a isso chamam progresso?"
Assim Falou Deus aos Homens, M.F.S
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Cinismo inconsciente (?)
As pessoas comentam entre si, assombradas, que jamais se viu tamanho nível de corrupção, tal qual ocorre no Brasil hoje em dia. Não comentam, entretanto, sobre a decadência institucional que esse país sofre desde o fim do Império. Parece que para elas não há relação alguma entre essas duas coisas. Mas enganam-se. Que faz de um homem alguém incorruptível? Seriam as leis, os instrumentos legais, preceitos técnicos, medo ... ? Não. O que faz um homem incorruptível é seu arcabouço moral; seus valores. E não se enganem: valores não germinam nas leis. Essas, na realidade, são única e exclusivamente consequência deles. Um homem torna-se incorruptível quando admite uma totalidade subjetiva, uma ordem moral, coisa essa que só pode ser concebida e transmitida no seio e pelas instituições. O homem nasce um selvagem! As instituições aperfeiçoam-no. São elas frutos de experiências infindas; são elas a democracia dos mortos, como diria Chesterton. Mas as pessoas não percebem isso... e seguem a entreolharem-se, assombradas, e a comentarem sobre desvios de caráter intermináveis — enquanto que, em outro momento, vociferam em nome de toda essa infâmia iluminista que relativiza e destrói o que temos demais vital.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Sem acordo
Para harmonizar as relações sociais, econômicas, políticas e morais das civilizações, criou o homem uma harmonia inconsciente entre essas aparentes tensões, à guisa de textos religiosos e revelações divinas, fontes, antes de tudo, de orientação, apontando para o Altíssimo; ora vacilando, ora acertando, um equilíbrio era atingido, mesmo que com dificuldades. As instituições, embora sempre susceptíveis a erros, mantinham suas palavras e honras, organizando-se da melhor forma possível. E no começo do século XX, essas mesmas partes das sociedades, outrora unidas, começaram a se contrapor. O liberalismo é ''ferino às idéias da Igreja'', alguns católicos dizem; ''o cristianismo é inútil para o livre mercado'', bradam alguns liberais; e exemplos dessas recentes brigas não têm fim.
Mas o sistema liberal de economia continua sendo sua exata palavra: liberal. Portanto, tudo, dentro da economia de mercado, é permitido, inclusive injustiças, acúmulo excessivo de dinheiro, diferenças de salários oceânicas, etc. Bastaria isso para notar que o mercado não se regula a si mesmo, com uma mão invisível, justa, pronta para estapear o primeiro crápula capitalista que cause à moral um arranhão.
E os católicos atuais, embora muitos deles possuam honestidade espiritual em criticar os liberais, não vêem que entre um estado grande, e um estado mínimo, este é melhor que aquele. Só no liberalismo clássico, com um estado pequeno, os católicos (também cristãos em geral e judeus) podem ser verdadeiramente livres para professarem suas crenças, e usarem, da economia livre, sua principal fonte de riqueza: a propriedade privada. Com isso, não só a sociedade fica mais religiosa, mas a religião fica mais social. Cada vez mais homens e mulheres ouviriam as palavras dos profetas e, sem dúvida, muitos, neste processo de expansão de fé, acabariam defendendo a mesma.
Os liberais, embora excelentes economistas e pensadores analíticos, não tinham uma noção límpida da práxis humana (com exceção de Von Mises, que, ainda assim, encontrava certos limites). Por serem extremamente talentosos em uma área específica, falhavam em focar nas outras, tão necessárias quanto formular o melhor dos sistemas econômicos. Böhm-Bawerk, Murray Rothbard, Friederich Hayek e outros liberais eram, em sua maioria, ateus ou agnósticos, completamente desinteressados nas bases morais do mundo ocidental, ou mesmo incapazes de notar a base moral do ocidente, isto é, a popularmente conhecida ''cultura judaico-cristã''.
Já os católicos gritam, quase em uníssono, que a Igreja condena a usura, ou qualquer tipo de ganância material. E isso é verdade. A Igreja de fato condena as injustiças econômicas. E é exatamente por isso que ela precisa coexistir junto ao sistema liberal econômico, não como dependente dele, mas como governante. É o cristianismo que defende o justo e condena o injusto, não a economia. Modelos econômicos, por definição, não podem ser classificados como ''imorais'' ou ''morais''. Fala-se disso de pessoas, e não de objetos inanimados. A economia tem tanta capacidade de ser ''moral'' quanto uma cadeira tem a possibilidade de ser feliz.
É de espantar a completa e entrópica cegueira entre liberais e católicos, não cientes de que eles precisam se ajudar, mais que urgentemente. Fica claro, pois, como o liberalismo necessita do cristianismo para proteger-se de si mesmo, e de como os cristãos não podem ser cristãos sem estarem livres. Liberais precisam de regras morais (cousa que só o cristianismo pode dar); e cristãos necessitam ser livres, econômica e socialmente (cousa que só o liberalismo econômico proporciona).
Mas não há razão para alarme. Fiquemos aqui, esperando que os liberais bolem uma economia à prova de injustiças e os católicos reconheçam que precisam do liberalismo.
Mas o sistema liberal de economia continua sendo sua exata palavra: liberal. Portanto, tudo, dentro da economia de mercado, é permitido, inclusive injustiças, acúmulo excessivo de dinheiro, diferenças de salários oceânicas, etc. Bastaria isso para notar que o mercado não se regula a si mesmo, com uma mão invisível, justa, pronta para estapear o primeiro crápula capitalista que cause à moral um arranhão.
E os católicos atuais, embora muitos deles possuam honestidade espiritual em criticar os liberais, não vêem que entre um estado grande, e um estado mínimo, este é melhor que aquele. Só no liberalismo clássico, com um estado pequeno, os católicos (também cristãos em geral e judeus) podem ser verdadeiramente livres para professarem suas crenças, e usarem, da economia livre, sua principal fonte de riqueza: a propriedade privada. Com isso, não só a sociedade fica mais religiosa, mas a religião fica mais social. Cada vez mais homens e mulheres ouviriam as palavras dos profetas e, sem dúvida, muitos, neste processo de expansão de fé, acabariam defendendo a mesma.
Os liberais, embora excelentes economistas e pensadores analíticos, não tinham uma noção límpida da práxis humana (com exceção de Von Mises, que, ainda assim, encontrava certos limites). Por serem extremamente talentosos em uma área específica, falhavam em focar nas outras, tão necessárias quanto formular o melhor dos sistemas econômicos. Böhm-Bawerk, Murray Rothbard, Friederich Hayek e outros liberais eram, em sua maioria, ateus ou agnósticos, completamente desinteressados nas bases morais do mundo ocidental, ou mesmo incapazes de notar a base moral do ocidente, isto é, a popularmente conhecida ''cultura judaico-cristã''.
Já os católicos gritam, quase em uníssono, que a Igreja condena a usura, ou qualquer tipo de ganância material. E isso é verdade. A Igreja de fato condena as injustiças econômicas. E é exatamente por isso que ela precisa coexistir junto ao sistema liberal econômico, não como dependente dele, mas como governante. É o cristianismo que defende o justo e condena o injusto, não a economia. Modelos econômicos, por definição, não podem ser classificados como ''imorais'' ou ''morais''. Fala-se disso de pessoas, e não de objetos inanimados. A economia tem tanta capacidade de ser ''moral'' quanto uma cadeira tem a possibilidade de ser feliz.
É de espantar a completa e entrópica cegueira entre liberais e católicos, não cientes de que eles precisam se ajudar, mais que urgentemente. Fica claro, pois, como o liberalismo necessita do cristianismo para proteger-se de si mesmo, e de como os cristãos não podem ser cristãos sem estarem livres. Liberais precisam de regras morais (cousa que só o cristianismo pode dar); e cristãos necessitam ser livres, econômica e socialmente (cousa que só o liberalismo econômico proporciona).
Mas não há razão para alarme. Fiquemos aqui, esperando que os liberais bolem uma economia à prova de injustiças e os católicos reconheçam que precisam do liberalismo.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Não temer
Hoje me dediquei a um pequeno exercício: refleti sobre onde deixamos o nosso cadáver. Pois não, cadáver! Tem de se ser muito ingênuo para acreditar que ainda estamos vivos... Morremos junto dos últimos grandes homens que se permitiam ousar a sonhar, a desafiar o comum, a triunfar sobre o ordinário – contínua e incansavelmente. Toda a História do mundo repousa um pouco em Aristóteles e também em Napoleão. Morríamos, é verdade, desde sempre, mas ainda conversávamos o infinito em nós... Hoje já não mais. A chama do gênio, regada nas virtudes, tomada pelo inabarcável desejo de ir adiante, obedecendo nossa gênese natural do Eterno, foi-se. E como se não bastasse ter ido, segue numa morte que também morre em si mesma, pois que o antônimo do Infinito não é o finito, mas o vulgar, o raso, o comum – e não, isto também não tem fim... Que não se entenda, por favor, que se pretende evocar as aventuras do quotidiano para alegar vida – que eu não seja tomado por um tolo juvenil, por Deus! A vida é feita na propulsão espiritual (sem fim) que ascende, incansavelmente, a todo o tempo, desejando descansar – não sabe ela! – em si mesma. O tempo do Querer se esgotou. Hoje só se faz, segue-se, copia-se, domestica-se, consente-se, cede-se... Mas que erro o meu... Como havíamos de deixar o nosso cadáver?! O cadáver é a única coisa que nos resta! Deixamos foi o nosso espírito! E seguimos deixando-o, em todo o instante em que se teme morrer.
domingo, 6 de outubro de 2013
Ninguém quer saber
Li alguns aforismos do escritor colombiano Nícolas Gomez Dávila ontem. Foi uma maravilha. Seus ensinamentos são tão profundos, tão maciçamente atuais e urgentes, que, no mínimo, dever-se-ia publicar a obra homem em todas as línguas do mundo, até em Urdo.
Mas não posso citá-lo para ninguém. Ai de mim se fizer tal ato ferino. Ninguém o conhece, obviamente. E citá-lo, na visão do brasileiro comum, é pedantismo. Por quê? É a lógica brasileira, ora: não conheço, logo não existe. E ai de quem revelar que esta última frase foi uma paráfrase de Descartes. Chegamos ao fundo do poço, ao pior dos níveis, àquele lugar onde não há mais volta: conhecer é ruim, ser ignorante é bom.
Quando cito algum autor antigo, ou um sábio, duas reações aparecem: ou uma incompreensão ímpar, ou um completo desdém. Na primeira situação, seria até tolerável; mas, infelizmente, a incompreensão, no Brasil, é alimentada pela igual inconsciência das outras pessoas, prontas para cortar qualquer idéia, ponderação, questionamento ou dúvida que você tenha. Este país gerou o incrível paradoxo da dúvida que não move o ser para a resposta. A dúvida é um fim por si só, numa mistura diabólica entre o ceticismo cartesiano e a rigidez kantiana.
A segunda reação, bem mais comum que a primeira, é o total e maciço repúdio, desprezo e ódio aos sábios, sejam antigos ou novos. Ora justificam que os tempos são outros, e isso de nada vale no contexto atual (surpreendentemente, Marx e cia. continuam atualíssimos), ora usam seu próprio umbigo como fonte de referência, bradando aberrações como ''não foi assim comigo, então não corresponde à realidade''. Quando não fazem isso, cometem a pacóvia e insultante atitude de, sim!, clamar que você não sabe de nada, mesmo que eles também não saibam.
Isso revolta qualquer espírito honesto e que queira passar o que se leu. Mortimer Adler dizia que o conhecimento, quando adquirido, espalha-se naturalmente para o mundo, porque já põe o conhecedor na posição de transportador. O educando vira educador, e assim funcionavam as cousas por quase 2500 de humanidade. Mas como propagar conhecimento, quando você não é autorizado a fazer isso? Com essa situação, tudo aponta, pois, para um exílio. Sair daqui é a única solução.
E quanto ao Nícolas Gomez Dávila? Bem, ele continuará desconhecido porque ninguém o quer conhecer. Não é pedante saber das cousas, ora bolas?
Mas não posso citá-lo para ninguém. Ai de mim se fizer tal ato ferino. Ninguém o conhece, obviamente. E citá-lo, na visão do brasileiro comum, é pedantismo. Por quê? É a lógica brasileira, ora: não conheço, logo não existe. E ai de quem revelar que esta última frase foi uma paráfrase de Descartes. Chegamos ao fundo do poço, ao pior dos níveis, àquele lugar onde não há mais volta: conhecer é ruim, ser ignorante é bom.
Quando cito algum autor antigo, ou um sábio, duas reações aparecem: ou uma incompreensão ímpar, ou um completo desdém. Na primeira situação, seria até tolerável; mas, infelizmente, a incompreensão, no Brasil, é alimentada pela igual inconsciência das outras pessoas, prontas para cortar qualquer idéia, ponderação, questionamento ou dúvida que você tenha. Este país gerou o incrível paradoxo da dúvida que não move o ser para a resposta. A dúvida é um fim por si só, numa mistura diabólica entre o ceticismo cartesiano e a rigidez kantiana.
A segunda reação, bem mais comum que a primeira, é o total e maciço repúdio, desprezo e ódio aos sábios, sejam antigos ou novos. Ora justificam que os tempos são outros, e isso de nada vale no contexto atual (surpreendentemente, Marx e cia. continuam atualíssimos), ora usam seu próprio umbigo como fonte de referência, bradando aberrações como ''não foi assim comigo, então não corresponde à realidade''. Quando não fazem isso, cometem a pacóvia e insultante atitude de, sim!, clamar que você não sabe de nada, mesmo que eles também não saibam.
Isso revolta qualquer espírito honesto e que queira passar o que se leu. Mortimer Adler dizia que o conhecimento, quando adquirido, espalha-se naturalmente para o mundo, porque já põe o conhecedor na posição de transportador. O educando vira educador, e assim funcionavam as cousas por quase 2500 de humanidade. Mas como propagar conhecimento, quando você não é autorizado a fazer isso? Com essa situação, tudo aponta, pois, para um exílio. Sair daqui é a única solução.
E quanto ao Nícolas Gomez Dávila? Bem, ele continuará desconhecido porque ninguém o quer conhecer. Não é pedante saber das cousas, ora bolas?
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