terça-feira, 7 de janeiro de 2014



Antes tarde que nunca... sobre os protestos recorrentes no Brasil...

“Extra, extra”: cinqüenta estudantes ocuparam a câmara de vereadores do Recife. Um número um pouco maior, uma parcela pequena, somada a esses cinqüenta, promoveu certas movimentações em tom frenético obstruindo vias e deixando quilômetros de engarrafamento. O motivo disso? Dizem eles em alto e bom coro, como animais que são, destituídos de todo e qualquer senso crítico, “passe livre é um direito”.

Culpam, esses atrevidos e petulantes, o governo de má gerência, descaso, no entanto requerem mais governo para sanar seus problemas. É, então, a ausência do governo o grave problema? Mas já não era, o próprio governo, o cancro? Em rápida retrospectiva: vimos a ação “legalista”, recheada de embromações jurídicas e burocráticas, que cessara com todos os transportes de iniciativa popular. E então?

Tornando à simplicidade: querem eles que suas passagens sejam pagas, mas não por eles. Nesse caso, ainda que concorde que o governo seja um grande mal e um péssimo gerente, tenho de afirmar que aqui o problema não é o governo, mas sim a imbecil idéia de que o Estado – no sentido real – deve ser uma espécie de pai ou de mãe. Não é toda a história do século XX o bastante para eles. Espanta-me isso tudo, que é tão somente que os promovedores da justiça social legitimam o roubo em nome da justiça social. Pois não, se querem que o Estado pague, ele há de fazê-lo. Mas Estado não produz riqueza... Todavia, segue-se firme o pensamento dos debilóides: “pode-se taxar aqueles que possuem mais, é justo”. É justo para quem? Para os desafortunados, diriam alguns. Mas eis que esses não estão a ocupar-se de tacarem fogos em pneus. Esses, salvo engano disse um iluminado de nossa triste UFPE, “precisam ser acordados e iluminados”. E quem lhes acordará, quem lhes fará brandir, em meio a gritos histéricos de júbilo, do gozo do terror, toda a torrente de liberdade e justiça? Os nossos velhos iluminados de sempre, essa classe que, senão parasitária já, a é em potência desde agora – seguirei mais sobre isso abaixo.

Usando da velha simplicidade de outros tempos, que configurava à realidade sua verdadeira dimensão e não a construía conforme afãs sexuais pueris: não, isso tudo não é justo. É, sim, roubo, e não me parece coerente falar de justiça social, direitos humanos fundamentais, sem a idéia de propriedade, especialmente quando essa era defendida há dois mil e quinhentos anos pelo próprio Aristóteles. Roubo segue sendo roubo e imbecil segue sendo imbecil. Não é livre e sã a conduta que não traz, ao conclamar a liberdade, circunstâncias reais para tal desfrute – muito pelo contrário, atos como esses, agora recorrentes, de quebra-quebra, são, em primeira instância, um atentado a toda e qualquer liberdade.

O mundo atual, para todo homem verdadeiramente livre, é atordoante. Digo isso sem muitas cismas filosóficas, mas através de uma análise rápida e clara: o mundo de hoje te prende sobremaneira. Mas antes fossem grilhões tangíveis, dolorosos! O mundo de hoje te prende da maneira mais vil possível: fazendo com que creias que tu és livre e, mais que isso, livre o suficiente para prender-se num materialismo sem fim, contraditório e decadente.

Pois, que há hoje no mundo senão uma síntese elaborada, ora mais camuflada, ora um pouco mais ou um pouco menos difusa, de todo o pensamento gnóstico, revolucionário e inexoravelmente trágico que floresceu e preencheu a tudo em meados do século XIX?

A liberdade de prender-se, de ser incoerente, de ser escravo, mais que um jogo dialéctico, é tanto “causa como conseqüência” – isto mesmo, em tom cômico -- da essência dos que vociferam hoje.

E, tornando ao ponto: “taxar os mais afortunados”. Isto é coerção, imposição, mas se é pela “causa”, então vale, posto que “a propriedade é um roubo”, ou, ainda melhor!, em outra perspectiva, é a “origem da desigualdade entre os homens” Há , então, aqueles que clamem Rousseau – arrepio-me sempre quando isso acontece. Vale ressaltar que esse sujeito, fora toda a vida ímpia para com seus pares – achando que isso nada tinha a ver com sua vontade de normartizar o mundo (vide, mais uma vez, a negligência para com a realidade) --, sofisticado e parcialmente instruído só teve seu famoso trabalho, A ORIGEM DA DESIGUALDADE ENTRE OS HOMENS, idolatrado a muito posteriori. Em seu lançamento, para que fora realmente feito – um concurso – o trabalho perdeu o prêmio e não convenceu a ninguém. A inconsistência de seu trabalho e seus paradoxos são visíveis para os mais atentos e, por que não, para os mais curiosos. Aqui abaixo um link resumindo o equívoco “rousseniano”: http://aboatradicao.blogspot.com.br/2012/12/sobre-o-tema-propriedade-privada.html

Muito me assusta, então, que chamem Rousseau para sustentar o que quer que seja. Ou, até mesmo, Proudhon, se quiser, de fato, apelar, ou, quem sabe Marx – sobre esse, alongar-me-ei –, em uma tentativa desesperada de fazer descer o “indescível”. Ainda que a muitos enganem, ainda que vos enganem, toda essa gente foi, em maior e menos grau, deficiente em pontos fundamentais de todos os seus raciocínios técnicos e filosóficos.

De certa maneira, gosto de pensar sobre o Marx: para mim é nele, e em sua obra, que há o maior ponto crítico de todos, desvendando toda a mortandade do bom senso intelectual que assolou o mundo desde o fim da escolástica. É nele, também, em que a vileza e o descaso explícito para com os clássicos – esses, verdadeiros homens, filósofos – faz-se da maior (e pior) forma possível. Também é a ele quem muitos recorrem para tentar suplantar qualquer vazio existencial ou insegurança pessoal. Para todos esses e mais tantos, devoto simplesmente CRÍTICA AO CAPITAL, de Vilfredo Pareto, um livro que, ainda que técnico, é cômico, pois escancara o déficit gigante do Marx em pontos extremamente triviais da ciência econômica. Para os que correm a suas grandes críticas e insights transcendentais, nada como A ANÁLISE DA DIALÉCTICA MARXISTA de Mário Ferreira dos Santos...

[Os livros acima são onde mais encontro pontos que destroem toda a análise marxista que não é, a meu ver, a gênese de todo o mal dos últimos cento e cinqüenta anos, mas é onde há a boa confluência desse mal -- tanto em Marx, propriamente dito, como no “Marx que ele veio a ser”, tantos anos depois, pelos carentes de ídolos – o que me faz lembrar de Nietzsche e suas críticas -- embora o bigodudo endeusado por esses marionetes, desejosos de romper com a moral vigente, não lhes devotaria mais que ojeriza.]

A incongruência, a incoerência, os equívocos, a incapacidade de síntese lógica, a fuga total da realidade, a análise sob prismas parciais, o passional sobre o racional, o fim sobre o início, são todas boas definições para o que vemos hoje. Quem muito acha tudo isso distante, preso também se encontra. É razoável, pois, concluir que qualquer coisa que se sustentasse nesses “iluminados” não findaria de maneira razoável e coesa.

Todo o hoje é uma reprodução contínua e patológica desse ontem doentio; pensam, eles, que descobriram tudo, e o lastro histórico, cultural, bem como a experiência de milênios, é coisa de simples mortais – ou não sabias tu que são eles o Übermensch?

Todos esses sujeitos que andam a fazer carreira de vadiagem, incitando revoltas lá e cá, recorrem-se a um direito universal, mas a própria Revolução carece, ela mesma, de um direito. A subversão, esses levantes todos, edificam-se com suas teorias e, sendo muito otimista, não se encerram elas numa base mais sólida do que a que encerra os (reais) valores que eles tanto criticam e querem desfazer.

O descaso para com o passado – o verdadeiro passado, aquele que de fato nos legara homens com suas vidas, integralmente – é a morte certa. Sofisma algum pode conseguir preservar a real liberdade, racional e absoluta, mais do que aquela que conserva um lastro escolhido pela natureza em comum dos homens, entre um urro de vontade de poucos indivíduos que conseguiram destacar-se, e condenada, a ser assim, pela História. O presente, e o passado recente, nada tem a dar-nos além de especulações e disso estamos fartos. Desastres ocorrem e mais estão a vir. O pensamento de hoje repousa num sangue ainda molhado. Todas as promessas e desejos desses senhores, bem como certos atos, assentam-se sobre camadas e mais camadas de prosa vazia que pouco foi “ contestada”– é verdade –, mas porque, desde sempre, nunca havia sido levada adiante tamanho o disparate e falta de bom senso.

O fervor de um ato oriundo de todos esses levantes é tão somente desfrutado por bestas achando esses que estão a preceder à verdadeira revolução. Tolos. Quantas vezes isso já não aconteceu? Quantas novas revoluções teremos ainda de aturar?
“Os tolos entram correndo onde os anjos temem pisar”.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Sobre a democracia em excesso

A verdade é que nem de perto a massa está apta para governar-se. A massa é completamente ignorante, e isso não é fruto da ausência da capacidade cognitiva alheia, mas tão somente fenômeno da própria massa. A multidão exerce um efeito idiotizante e histérico. A união faz a força, é verdade, mas raciocina quase que nada. A História nos mostra o quão pouco efeito, no sentido das reais necessidades, fizeram manifestações populares no decorrer da História e isso não vai mudar. Especialmente num país de condutas tão supérfluas. Se conseguir algo, isso sendo otimista, será só encharcar o solo com sangue.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Pondo certos entusiasmos em seus devidos lugares

Não conheço ninguém que se deixaria morrer pelo livre-mercado, mas conheço muita gente que se deixaria morrer pela família, por amor, por Deus, por lealdade... A negligência para com tais valores, crenças e sentimentos é a grande vilã que deixou a direita morrer. A técnica não é o suficiente no campo ideológico. Na realidade, talvez seja uma coisa extremamente secundária. O ceticismo no qual mergulhou a direita, -- podada, submissa e cheia de modos desnecessários, prezando antes de mais nada e, ao mesmo tempo, depois de tudo, a mera técnica -- é também o seu fracasso. A dissociação da vida prática com o seu substrato metafísico e essencial a matou. E agora nos mata a todos.

sábado, 30 de novembro de 2013

''Yo, un Irresponsable''

Este portentoso irresponsável que vos fala, voltando de uma compra de livros, se deparou com uma situação inusitada: a família fazia um fuzuê acerca de um portão quebrado. É um portão já velho, enferrujado, todo oxidado pela maresia. Num país normal, alguém chamaria um empreiteiro que manja dessas artes de portão, e ele o consertaria sem problemas; mas não é o caso no Brasil.

Aqui, problemas pequenos, insignificantes, viram verdadeiras epopéias homéricas. Meu pai gritando, minhas irmãs gritando, tios e tias opinando. Parecia uma festa de Calígula, só que sem a putaria.

E eu, o irresponsável, prontifiquei-me a chamar um desses manjadores de portão, para ele manjá-lo, e consertá-lo de vez. Não me estressei, fiquei calmo, não levantei a voz, e resolvi a cousa em menos de cinco minutos. Quem foi o irresponsável da história? Sim: eu, é claro. A responsabilidade foi totalmente invertida neste país: é responsável que se estressa para resolver algum problema, e não quem de fato o resolve.

Mas vá lá. Que eu seja vagabundo mesmo, comprando meus livros, e resolvendo o que nenhum responsável faz.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

"Os lobos, descontentes da vida que levavam, resolveram reconstruir a sua ordem social.
— Imitemos as abelhas! — Propôs um.
— Melhor, as térmitas! — Propôs outro.
Depois de muitos debates, a maioria convenceu-se que a ordem estabelecida pelas abelhas seria a que melhor se coadunaria aos lobos.
Antes de pôr em votação, um velho lobo, pedindo a palavra, disse:

— As razoes da proposta são inegavelmente interessantes e ponderadas. Que tenha servido para abelhas e térmitas, compreendo. Que venha a servir para lobos é o que duvido, pela simples razão de lobos serem lobos, e não abelhas nem térmitas. E, por outro lado, deixai-me ao menos por uma pequena dose de pessimismo lupino: depois de milênios e milênios, os lobos volvem para os insetos em busca de construções sociais... Será que a isso chamam progresso?"

Assim Falou Deus aos Homens, M.F.S 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Cinismo inconsciente (?)

As pessoas comentam entre si, assombradas, que jamais se viu tamanho nível de corrupção, tal qual ocorre no Brasil hoje em dia. Não comentam, entretanto, sobre a decadência institucional que esse país sofre desde o fim do Império. Parece que para elas não há relação alguma entre essas duas coisas. Mas enganam-se. Que faz de um homem alguém incorruptível? Seriam as leis, os instrumentos legais, preceitos técnicos, medo ... ? Não. O que faz um homem incorruptível é seu arcabouço moral; seus valores. E não se enganem: valores não germinam nas leis. Essas, na realidade, são única e exclusivamente consequência deles. Um homem torna-se incorruptível quando admite uma totalidade subjetiva, uma ordem moral, coisa essa que só pode ser concebida e transmitida no seio e pelas instituições. O homem nasce um selvagem! As instituições aperfeiçoam-no. São elas frutos de experiências infindas; são elas a democracia dos mortos, como diria Chesterton. Mas as pessoas não percebem isso... e seguem a entreolharem-se, assombradas, e a comentarem sobre desvios de caráter intermináveis — enquanto que, em outro momento, vociferam em nome de toda essa infâmia iluminista que relativiza e destrói o que temos demais vital.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Sem acordo

Para harmonizar as relações sociais, econômicas, políticas e morais das civilizações, criou o homem uma harmonia inconsciente entre essas aparentes tensões, à guisa de textos religiosos e revelações divinas, fontes, antes de tudo, de orientação, apontando para o Altíssimo; ora vacilando, ora acertando, um equilíbrio era atingido, mesmo que com dificuldades. As instituições, embora sempre susceptíveis a erros, mantinham suas palavras e honras, organizando-se da melhor forma possível. E no começo do século XX, essas mesmas partes das sociedades, outrora unidas, começaram a se contrapor. O liberalismo é ''ferino às idéias da Igreja'', alguns católicos dizem; ''o cristianismo é inútil para o livre mercado'', bradam alguns liberais; e exemplos dessas recentes brigas não têm fim.

Mas o sistema liberal de economia continua sendo sua exata palavra: liberal. Portanto, tudo, dentro da economia de mercado, é permitido, inclusive injustiças, acúmulo excessivo de dinheiro, diferenças de salários oceânicas, etc. Bastaria isso para notar que o mercado não se regula a si mesmo, com uma mão invisível, justa, pronta para estapear o primeiro crápula capitalista que cause à moral um arranhão. 

E os católicos atuais, embora muitos deles possuam honestidade espiritual em criticar os liberais, não vêem que entre um estado grande, e um estado mínimo, este é melhor que aquele. Só no liberalismo clássico, com um estado pequeno, os católicos (também cristãos em geral e judeus) podem ser verdadeiramente livres para professarem suas crenças, e usarem, da economia livre, sua principal fonte de riqueza: a propriedade privada. Com isso, não só a sociedade fica mais religiosa, mas a religião fica mais social. Cada vez mais homens e mulheres ouviriam as palavras dos profetas e, sem dúvida, muitos, neste processo de expansão de fé, acabariam defendendo a mesma.

Os liberais, embora excelentes economistas e pensadores analíticos, não tinham uma noção límpida da práxis humana (com exceção de Von Mises, que, ainda assim, encontrava certos limites). Por serem extremamente talentosos em uma área específica, falhavam em focar nas outras, tão necessárias quanto formular o melhor dos sistemas econômicos. Böhm-Bawerk, Murray Rothbard, Friederich Hayek e outros liberais eram, em sua maioria, ateus ou agnósticos, completamente desinteressados nas bases morais do mundo ocidental, ou mesmo incapazes de notar a base moral do ocidente, isto é, a popularmente conhecida ''cultura judaico-cristã''.

Já os católicos gritam, quase em uníssono, que a Igreja condena a usura, ou qualquer tipo de ganância material. E isso é verdade. A Igreja de fato condena as injustiças econômicas. E é exatamente por isso que ela precisa coexistir junto ao sistema liberal econômico, não como dependente dele, mas como governante. É o cristianismo que defende o justo e condena o injusto, não a economia. Modelos econômicos, por definição, não podem ser classificados como ''imorais'' ou ''morais''. Fala-se disso de pessoas, e não de objetos inanimados. A economia tem tanta capacidade de ser ''moral'' quanto uma cadeira tem a possibilidade de ser feliz.

É de espantar a completa e entrópica cegueira entre liberais e católicos, não cientes de que eles precisam se ajudar, mais que urgentemente. Fica claro, pois, como o liberalismo necessita do cristianismo para proteger-se de si mesmo, e de como os cristãos não podem ser cristãos sem estarem livres. Liberais precisam de regras morais (cousa que só o cristianismo pode dar); e cristãos necessitam ser livres, econômica e socialmente (cousa que só o liberalismo econômico proporciona).

Mas não há razão para alarme. Fiquemos aqui, esperando que os liberais bolem uma economia à prova de injustiças e os católicos reconheçam que precisam do liberalismo.