quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Borgeby Gard, Flàdie, Suécia, 12 de agosto de 1904

''...Voltando ao assunto da solidão, fica cada vez mais claro que no fundo ela não é nada que se possa escolher ou abandonar. Somos solitários. É possível iludir-se a esse respeito e agir como se não fôssemos. É tudo. Muito melhor, porém, é perceber que somos solitários, e partir exatamente daí. Com certeza acontecerá de sentirmos vertigens, pois todos os pontos em que nossos olhos costumavam descansar nos são tirados, não há mais nada próximo, e toda distância é uma distância infinita. Quem fosse retirado de seu quarto, quase sem preparação ou transição, e posto nas alturas de uma grande montanha, necessariamente sentiria algo semelhante: uma insegurança sem igual, um abandono ao inominável quase o aniquilariam. Ele pensaria estar caindo ou sendo arrastado pelos ares ou destroçado em mil pedaços. Seu cérebro precisaria inventar uma mentira enorme para captar e esclarecer a situação de seus sentidos. É assim que se modificam, para quem se torna solitário, todas as distâncias, todas as medidas; dessas modificações, há muitas que ocorrem repentinamente. Como para aquele homem no pico da montanha, surgem então imaginações inabituais e sensações estranhas, que parecem ultrapassar a medida do que se pode suportar. No entanto é necessário que vivamos também isso. Precisamos aceitar a nossa existência em todo o seu alcance; tudo, mesmo o inaudito, tem de ser possível nela. No fundo é esta a única coragem que se exige de nós: sermos corajosos diante do que é mais estranho, mais maravilhoso e mais inexplicável entre tudo com que nos deparamos. O fato de os homens terem sido covardes nesse sentido causou danos infinitos à vida; as experiências que são chamadas de "fenômenos", todo o suposto "mundo dos espíritos", a morte, todas essas coisas tão familiares para nós foram tão excluídas da vida, por meio de uma atitude cotidiana defensiva, que os sentidos com os quais poderíamos apreendê-las se atrofiaram. Sem falar em Deus. Mas o medo do inexplicável não empobreceu apenas a existência individual, também as relações entre as pessoas foram limitadas por ele, como que transferidas do leito de um rio de infinitas possibilidades para um local ermo da margem, onde nada acontece. Pois não é apenas a indolência que faz as relações humanas se repetirem de modo tão monótono e sem renovação de caso a caso, é a timidez diante de qualquer experiência nova, imprevista, para a qual não nos consideramos amadurecidos. Mas apenas quem está pronto para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, viverá a relação com uma outra pessoa como algo vivo e irá até o fundo de sua própria existência. Pois, se pensamos a existência do indivíduo como um cômodo de dimensões maiores ou menores, revela-se que a maioria de nós só chega a conhecer um canto de seu quarto, um local perto da janela, uma faixa na qual se anda para lá e para cá. Contudo, é muito mais humana do que essa segurança aquela incerteza, cheia de perigos, que leva os prisioneiros dos contos de Poe a tatearem as formas de seus cárceres aterrorizantes e a não serem alheios aos horrores indizíveis de sua permanência ali. E no entanto nós não somos prisioneiros. Não há armadilhas e emboscadas armadas em torno de nós, nada que nos devesse angustiar ou perturbar. Estamos lançados na vida como no elemento ao qual correspondemos melhor, além disso nos tornamos, por meio de uma adaptação de milhares de anos, tão semelhantes a essa vida que, por um mimetismo afortunado, se nos mantivermos quietos, quase não nos diferenciaremos daquilo que nos cerca. Não temos motivo algum para desconfiar de nosso mundo, pois ele não está contra nós. Caso possua terrores, são nossos terrores; caso surjam abismos, esses abismos pertencem a nós; caso existam perigos, então precisamos aprender a amá-los. Se orientarmos a nossa vida segundo aquele princípio que nos aconselha a nos aferrarmos sempre ao que é difícil, o que agora nos parece ser muito estranho se tornará o que há de mais familiar e confiável. Como poderíamos esquecer aqueles antigos mitos que se encontram nos primórdios de todos os povos, os mitos sobre os dragões que, no último momento, transformam-se em princesas; talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo terror não passe, em última instância, do desamparo que requer nossa ajuda. 

Assim, não é preciso se assustar, meu caro Kappus, quando uma tristeza se ergue à sua frente, tão grande como o senhor nunca viu; quando uma inquietação passa por sobre as suas mãos e perpassa todas as suas ações, como a luz e as sombras das nuvens. É preciso pensar que acontece algo com o senhor, que a vida não o esqueceu, que ela segura sua mão e não o deixará cair. Por que o senhor pretende excluir de sua vida qualquer inquietude, qualquer dor, qualquer melancolia, sem saber o que essas circunstâncias realizam? Por que perseguir a si mesmo com estas perguntas: de onde pode vir tudo isso e para onde vai? No entanto, o senhor sabe que está em meio a transições e não desejaria nada mais do que se transformar. Se algum dos seus procedimentos for doentio, considere que a doença é um meio com o qual o organismo se liberta de corpos estranhos; por isso é apenas preciso ajudá-lo a estar doente, a assumir e ter sua doença por completo, pois é esse o seu curso natural. Agora acontece tanta coisa em seu íntimo, meu caro Kappus. É preciso ter paciência como um doente e ter confiança como um convalescente, pois talvez o senhor seja ambas as coisas. Mais ainda: o senhor também é o médico que tem de tratar de si mesmo. Mas em toda doença há muitos dias em que o médico não pode fazer nada além de esperar. E é isso, mais do que qualquer outra coisa, que o senhor, por ser seu próprio médico, precisa fazer agora.

Não se observe demais. Não tire conclusões demasiado apressadas daquilo que lhe acontece; deixe simplesmente as coisas acontecerem. Senão facilmente chegará a considerar com censuras (morais) o seu passado, que naturalmente tem participação em tudo aquilo com que o senhor se depara agora. Mas, dos erros, desejos e nostalgias de seu tempo de menino, o que atua agora em sua pessoa não é o que o senhor tem na memória e reprova. As relações extraordinárias de uma infância solitária e desamparada são tão difíceis, tão complicadas, submetidas a tantas influências, e ao mesmo tempo tão desligadas de todas as circunstâncias reais da vida, que quando surge um vício não se deve dar a ele sem mais o nome de vício. Em geral, é preciso ter muito cuidado com os nomes; muitas vezes é o nome de um crime que destrói uma vida, e não a própria ação, pessoal e inominada, que talvez fosse uma necessidade muito determinada dessa vida e pudesse ser acolhida sem esforço por ela. O dispêndio de energia só lhe parece tão grande porque o senhor superestima a vitória; não é ela a "grandiosa" realização que o senhor pretende ter conseguido, embora tenha razão com relação a seu modo de sentir; o grandioso é o fato de haver algo ali que o senhor pôde colocar no lugar daquele engano, algo de verdadeiro e real. Sem isso, mesmo a sua vitória teria sido apenas uma reação moral, sem um significado amplo, mas dessa maneira ela se tornou uma parcela da sua vida. Da sua vida, caro senhor Kappus, na qual penso fazendo tantos votos. Lembra-se de como essa vida aspirava desde a infância pelos "grandes"? Vejo como ela agora parte dos grandes para aspirar pelos maiores. É por isso que ela nunca deixa de ser difícil, mas também é por isso que nunca deixará de crescer.

Se ainda posso acrescentar algo, é o seguinte: não acredite que quem procura consolá-lo vive sem esforço, em meio às palavras simples e tranqüilas que às vezes lhe fazem bem. A vida dele tem muita labuta e muita tristeza e permanece muito atrás dessas coisas. Se fosse de outra maneira, nunca teria encontrado aquelas palavras.

Seu,

Rainer Maria Rilke.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Why the West Has Won

''When the trumpet sounded, the soldiers took up their arms and went out. As they charged faster and faster, they gave a loud cry, and on their own broke into a run toward the camp. But a great fear took hold of the barbarian hosts; the Cilician queen fled outright in her carriage, and those in the market threw down their wares and also took to flight. At that point, the Greeks in great laughter approached the camp. And the Cilician queen was filled with admiration at the brilliant spectacle and order of the phalanx; and Cyrus was delighted to see the abject terror of the barbarians when they saw the Greeks.''

--Xenophon, Anabasis (1.2.16-18)

Eros e Psique

"Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
Do além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão , e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia."

Fernando Pessoa

quarta-feira, 26 de março de 2014

"Não aceitamos o mito do progresso contínuo. Não aceitamos liberalizações. Fujamos às tentações e aos caminhos escorregadios abertos pelo deslumbramento do "pluralismo". Não façamos desvairadas corridas a autonomias. Procedemos com firmeza e consciência, cultivando as minorias valiosas e sabendo ver onde elas estão. Sem medo ao extremismo, porque existe um extremismo indispensável: o do bem, da verdade, da justiça, que não tem acomodações nem meias tintas, nem hibridismo."
Dominar as ondas, nº2, II Série, 16-30 Junho 1972


sábado, 8 de março de 2014

A morte do ocidente

Financiamos nosso futuro através do esquecimento, no agora, comprometendo-o de modo irremediável. O canto do gol e o urro dos bares traduz o eco proferido pelo sonho que se perde no precipício. O comodismo dança com a vaidade, aplaudido pela derrota. Prefere-se o hoje à História e a qualquer porvir que poderia ser grande. Não se quer sê-lo. Quer-se ser o raso; quer-se a futilidade, os livros de auto-ajuda e uma justificativa para as derrotas pessoais e os anseios infantis. Não mais os grandes feitos, não mais os grandes homens, ou homens – é uma sociedade animalizada, infantilizada e inconseqüente. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

"Para um católico, Deus e a Bíblia são teleológicos, o que significa dizer que, segundo ambos, as coisas têm propósitos. Por exemplo, não cabe ao homem definir, de acordo com suas vontades arbitrárias, os propósitos do casamento e da sexualidade. Deus pune aqueles homens que ignoram, em nome de seus próprios caprichos, a ordem e o propósito que Ele construiu em Sua criação. Católicos, em geral, nunca foram nominalistas: eles não consideravam a vontade de Deus como sendo algo absolutamente impenetrável, e nem Suas leis morais como sendo essencialmente arbitrárias. Determinadas ações não se tornavam boas só porque Deus havia dito que eram boas; Deus havia dito que eram boas porque elas eram boas. Assim, desde o mundo físico até o mundo dos preceitos morais, Deus se mostrava perfeitamente racional e metódico."
Thomas Woods Jr.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014



Antes tarde que nunca... sobre os protestos recorrentes no Brasil...

“Extra, extra”: cinqüenta estudantes ocuparam a câmara de vereadores do Recife. Um número um pouco maior, uma parcela pequena, somada a esses cinqüenta, promoveu certas movimentações em tom frenético obstruindo vias e deixando quilômetros de engarrafamento. O motivo disso? Dizem eles em alto e bom coro, como animais que são, destituídos de todo e qualquer senso crítico, “passe livre é um direito”.

Culpam, esses atrevidos e petulantes, o governo de má gerência, descaso, no entanto requerem mais governo para sanar seus problemas. É, então, a ausência do governo o grave problema? Mas já não era, o próprio governo, o cancro? Em rápida retrospectiva: vimos a ação “legalista”, recheada de embromações jurídicas e burocráticas, que cessara com todos os transportes de iniciativa popular. E então?

Tornando à simplicidade: querem eles que suas passagens sejam pagas, mas não por eles. Nesse caso, ainda que concorde que o governo seja um grande mal e um péssimo gerente, tenho de afirmar que aqui o problema não é o governo, mas sim a imbecil idéia de que o Estado – no sentido real – deve ser uma espécie de pai ou de mãe. Não é toda a história do século XX o bastante para eles. Espanta-me isso tudo, que é tão somente que os promovedores da justiça social legitimam o roubo em nome da justiça social. Pois não, se querem que o Estado pague, ele há de fazê-lo. Mas Estado não produz riqueza... Todavia, segue-se firme o pensamento dos debilóides: “pode-se taxar aqueles que possuem mais, é justo”. É justo para quem? Para os desafortunados, diriam alguns. Mas eis que esses não estão a ocupar-se de tacarem fogos em pneus. Esses, salvo engano disse um iluminado de nossa triste UFPE, “precisam ser acordados e iluminados”. E quem lhes acordará, quem lhes fará brandir, em meio a gritos histéricos de júbilo, do gozo do terror, toda a torrente de liberdade e justiça? Os nossos velhos iluminados de sempre, essa classe que, senão parasitária já, a é em potência desde agora – seguirei mais sobre isso abaixo.

Usando da velha simplicidade de outros tempos, que configurava à realidade sua verdadeira dimensão e não a construía conforme afãs sexuais pueris: não, isso tudo não é justo. É, sim, roubo, e não me parece coerente falar de justiça social, direitos humanos fundamentais, sem a idéia de propriedade, especialmente quando essa era defendida há dois mil e quinhentos anos pelo próprio Aristóteles. Roubo segue sendo roubo e imbecil segue sendo imbecil. Não é livre e sã a conduta que não traz, ao conclamar a liberdade, circunstâncias reais para tal desfrute – muito pelo contrário, atos como esses, agora recorrentes, de quebra-quebra, são, em primeira instância, um atentado a toda e qualquer liberdade.

O mundo atual, para todo homem verdadeiramente livre, é atordoante. Digo isso sem muitas cismas filosóficas, mas através de uma análise rápida e clara: o mundo de hoje te prende sobremaneira. Mas antes fossem grilhões tangíveis, dolorosos! O mundo de hoje te prende da maneira mais vil possível: fazendo com que creias que tu és livre e, mais que isso, livre o suficiente para prender-se num materialismo sem fim, contraditório e decadente.

Pois, que há hoje no mundo senão uma síntese elaborada, ora mais camuflada, ora um pouco mais ou um pouco menos difusa, de todo o pensamento gnóstico, revolucionário e inexoravelmente trágico que floresceu e preencheu a tudo em meados do século XIX?

A liberdade de prender-se, de ser incoerente, de ser escravo, mais que um jogo dialéctico, é tanto “causa como conseqüência” – isto mesmo, em tom cômico -- da essência dos que vociferam hoje.

E, tornando ao ponto: “taxar os mais afortunados”. Isto é coerção, imposição, mas se é pela “causa”, então vale, posto que “a propriedade é um roubo”, ou, ainda melhor!, em outra perspectiva, é a “origem da desigualdade entre os homens” Há , então, aqueles que clamem Rousseau – arrepio-me sempre quando isso acontece. Vale ressaltar que esse sujeito, fora toda a vida ímpia para com seus pares – achando que isso nada tinha a ver com sua vontade de normartizar o mundo (vide, mais uma vez, a negligência para com a realidade) --, sofisticado e parcialmente instruído só teve seu famoso trabalho, A ORIGEM DA DESIGUALDADE ENTRE OS HOMENS, idolatrado a muito posteriori. Em seu lançamento, para que fora realmente feito – um concurso – o trabalho perdeu o prêmio e não convenceu a ninguém. A inconsistência de seu trabalho e seus paradoxos são visíveis para os mais atentos e, por que não, para os mais curiosos. Aqui abaixo um link resumindo o equívoco “rousseniano”: http://aboatradicao.blogspot.com.br/2012/12/sobre-o-tema-propriedade-privada.html

Muito me assusta, então, que chamem Rousseau para sustentar o que quer que seja. Ou, até mesmo, Proudhon, se quiser, de fato, apelar, ou, quem sabe Marx – sobre esse, alongar-me-ei –, em uma tentativa desesperada de fazer descer o “indescível”. Ainda que a muitos enganem, ainda que vos enganem, toda essa gente foi, em maior e menos grau, deficiente em pontos fundamentais de todos os seus raciocínios técnicos e filosóficos.

De certa maneira, gosto de pensar sobre o Marx: para mim é nele, e em sua obra, que há o maior ponto crítico de todos, desvendando toda a mortandade do bom senso intelectual que assolou o mundo desde o fim da escolástica. É nele, também, em que a vileza e o descaso explícito para com os clássicos – esses, verdadeiros homens, filósofos – faz-se da maior (e pior) forma possível. Também é a ele quem muitos recorrem para tentar suplantar qualquer vazio existencial ou insegurança pessoal. Para todos esses e mais tantos, devoto simplesmente CRÍTICA AO CAPITAL, de Vilfredo Pareto, um livro que, ainda que técnico, é cômico, pois escancara o déficit gigante do Marx em pontos extremamente triviais da ciência econômica. Para os que correm a suas grandes críticas e insights transcendentais, nada como A ANÁLISE DA DIALÉCTICA MARXISTA de Mário Ferreira dos Santos...

[Os livros acima são onde mais encontro pontos que destroem toda a análise marxista que não é, a meu ver, a gênese de todo o mal dos últimos cento e cinqüenta anos, mas é onde há a boa confluência desse mal -- tanto em Marx, propriamente dito, como no “Marx que ele veio a ser”, tantos anos depois, pelos carentes de ídolos – o que me faz lembrar de Nietzsche e suas críticas -- embora o bigodudo endeusado por esses marionetes, desejosos de romper com a moral vigente, não lhes devotaria mais que ojeriza.]

A incongruência, a incoerência, os equívocos, a incapacidade de síntese lógica, a fuga total da realidade, a análise sob prismas parciais, o passional sobre o racional, o fim sobre o início, são todas boas definições para o que vemos hoje. Quem muito acha tudo isso distante, preso também se encontra. É razoável, pois, concluir que qualquer coisa que se sustentasse nesses “iluminados” não findaria de maneira razoável e coesa.

Todo o hoje é uma reprodução contínua e patológica desse ontem doentio; pensam, eles, que descobriram tudo, e o lastro histórico, cultural, bem como a experiência de milênios, é coisa de simples mortais – ou não sabias tu que são eles o Übermensch?

Todos esses sujeitos que andam a fazer carreira de vadiagem, incitando revoltas lá e cá, recorrem-se a um direito universal, mas a própria Revolução carece, ela mesma, de um direito. A subversão, esses levantes todos, edificam-se com suas teorias e, sendo muito otimista, não se encerram elas numa base mais sólida do que a que encerra os (reais) valores que eles tanto criticam e querem desfazer.

O descaso para com o passado – o verdadeiro passado, aquele que de fato nos legara homens com suas vidas, integralmente – é a morte certa. Sofisma algum pode conseguir preservar a real liberdade, racional e absoluta, mais do que aquela que conserva um lastro escolhido pela natureza em comum dos homens, entre um urro de vontade de poucos indivíduos que conseguiram destacar-se, e condenada, a ser assim, pela História. O presente, e o passado recente, nada tem a dar-nos além de especulações e disso estamos fartos. Desastres ocorrem e mais estão a vir. O pensamento de hoje repousa num sangue ainda molhado. Todas as promessas e desejos desses senhores, bem como certos atos, assentam-se sobre camadas e mais camadas de prosa vazia que pouco foi “ contestada”– é verdade –, mas porque, desde sempre, nunca havia sido levada adiante tamanho o disparate e falta de bom senso.

O fervor de um ato oriundo de todos esses levantes é tão somente desfrutado por bestas achando esses que estão a preceder à verdadeira revolução. Tolos. Quantas vezes isso já não aconteceu? Quantas novas revoluções teremos ainda de aturar?
“Os tolos entram correndo onde os anjos temem pisar”.