domingo, 3 de fevereiro de 2019

Retrato


Mi infancia son recuerdos de un patio de Sevilla,
y un huerto claro donde madura el limonero;
mi juventud, veinte años en tierras de Castilla;
mi historia, algunos casos que recordar no quiero.

Ni un seductor Mañara, ni un Bradomín he sido
ya conocéis mi torpe aliño indumentario-
mas recibí las flechas que me asignó Cupido,
y amé cuanto ellas puedan tener de hospitalario.

Hay en mis venas gotas de sangre jacobina,
pero mi verso brota de manantial sereno;
y más que un hombre al uso que sabe su doctrina
soy, en el buen sentido de la palabra, bueno.

Adoro la hermosura, y en la moderna estética
corté las viejas rosas del huerto de Ronsard,
mas no amo los afeites de la actual cosmética
ni soy un ave de esas del nuevo gay-trinar.

Desdeño las romanzas de los tenores huecos
y el coro de los grillos que cantan a la luna.
A distinguir me paro las voces de los ecos
y escucho solamente entre las voces una.

¿Soy clásico o romántico? No sé. Dejar quisiera
mi verso como deja el capitán su espada;
famosa por la mano viril que la blandiera,
no por el docto oficio del forjador preciada.

Converso con el hombre que siempre va conmigo
-quien habla solo espera hablar a Dios un día-.
Mi soliloquio es plática con este buen amigo
que me enseñó el secreto de la filantropía.

Y al cabo, nada os debo:debéisme cuanto he escrito.
A mi trabajo acudo, con mi dinero pago
el traje que me cubre y la mansión que habito,
el pan que me alimenta y el lecho en donde yago.

Y cuando llegue el día del último viaje
y esté al partir la nave que nunca ha de tornar,
me encontraréis a bordo, ligero de equipaje,
casi desnudo, como los hijos de la mar.(PC XCVII)

Antonio Machado

domingo, 20 de janeiro de 2019



Creio na sabedoria divina criadora do cosmos; creio no cavalheirismo dos libertadores de bons prisioneiros; creio no amparo aos perseguidos, e aos necessitados, ávidos de justiça e de liberdade. Creio no orgulho ante os poderosos; na justiça ante os maus; na magnanimidade ante os bons e os mansos, na delicadeza ante as mulheres e as crianças. Creio na coragem; no domínio dos desejos e no amor eterno. Creio na vida e na morte; amo as sombras dos bosques e a luz plena do meio-dia. Creio na cavalaria andante, realização suprema do homem bom e viril. Creio que há sempre um ideal a conquistar; feiticeiros que combater, duendes que enfrentar, e monstros que destruir. Creio na necessidade do mal para maior glória do bem. Creio na noite para maior glória do sol, e no sol para maior glória da lua, inseparáveis amigos e confidentes dos campeadores do ideal.


Mário Ferreira dos Santos em Antologia da Literatura Mundial - Páginas Várias.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

O Quinto Império

《Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz —
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa — os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?》

Pessoa in 《Mensagem》.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Fé e Bravura

Em Ourique, D. Afonso, com sua pequena hoste de lusitanos, teve que enfrentar de uma só vez cinco príncipes árabes, à frente de uma tropa muito maior que a sua. Antes da batalha, na madrugada de Portugal, o Conde se retirou do acampamento para pedir ao Deus dos combates a força e a vitória. Enquanto rezava, aconteceu o milagre: Cristo lhe apareceu no céu, pendente da Cruz, com as cinco chagas brilhando. E do peito de D. Afonso saiu então o grito sublime:

"Não a mim! Não a mim, Senhor! Aos infiéis, aos infiéis, Senhor, e não a mim que creio o que podeis! " . "Não a mim, Senhor, não a mim, esta misericórdia. Aos árabes, a graça desta visão, para que se convertam".

Quando nasceu a Espanha, tremeu e abriu-se a terra. Quando nasceu Portugal, abriu-se o céu.

Orlando Fedeli




domingo, 16 de dezembro de 2018

Bhagavad Gita

Breves lições*. 

O homem deve agir conforme a necessidade da circunstância. Deve agir de modo indiferente aos frutos; agir com total desapego à conseqüência e às benesses de seu esforço. O homem que age pensando na boa colheita e no que desfrutará, corrompe-se, porque toda a sua ação perde a substância e assim ele tende a cair em vícios e perder-se hoje porque pensa no amanhã.

Nada mais empurra o homem à corrupção e à maldade do que o desejo e a ira. A empreitada humana, executada por uma idéia de que ela irá retornar como uma boa colheita é egoísmo e fraqueza. É como se dissipássemos a energia do “fazer agora” por ficarmos regozijando o que pode estar por vir depois.
O desejo ofusca a boa intenção e nos confunde no presente, no “agora da ação”. Devemos nos ater àquilo que deve ser feito, porque as benesses da justiça não são só uma reação à ação de hoje, mas também uma ressonância de nossa ação, só que proveniente de uma outra extensão de nosso ser e/ou uma ação de outro ser. O mundo é ação.

Fraquejar diante de adversidades e dilemas por temer executar uma determinada tarefa não te salvará do fracasso, afinal a não-execução de uma determinada coisa é, ao mesmo tempo, a execução de outra. A hesitação sempre vem do medo pelo depois e é aqui que temos de retroagir ao fato de simplesmente fazer e ponto final. Fazer o que tem de ser feito; combater o nosso medo e também a alegria; ter uma temperança extrema, um equilíbrio mórbido.

Também se deve levar em consideração o conceito do Yajna (sacrifício) no qual explica que todo ganho desse e nesse mundo deve ser uma compensação por algo, por um esforço, mesmo que de maneira indiferente – afinal o desapego numa ação consiste num trabalho mental bastante elevado. Aqueles que nada sacrificam mas a tudo usufruem são fracos de espírito, não se elevam. É como se apropriarem de algo indigno a eles...

Há o corpo, mas também os sentidos. Superior a eles há a razão, e a ela há o Atman (alma), centelha do Deus. Dessa maneira, controlando o Atman, ordenamos bem a razão, que ordena os sentidos e que, por sua vez, ordena o corpo: o meio pelo qual se faz o que se deve fazer.

Deus não há forma e tampouco é algo palpável, mas se utiliza de algo concreto para ordenar o mundo: como o sol, para fazer o dia e a lua compondo a noite. Dessa maneira, percebemos a regularidade das coisas. Para entrarmos em harmonia, então, devemos também ser regulares conosco ao máximo. Assim trabalhos o nosso Ser e ele é a essência de todo o resto.

A verdade e os valores sempre prevalecem pois são intrínsecos ao espírito. Seu antônimo, a bestialidade, a desonra e o mal, não, pois não são coisas independentes e não podem existir por si mesmas. Aquele que distingue o bem do mal, ao pé da letra, é o homem sem interesse, sem a vontade de espiar o futuro – o mal é simplesmente a ausência.

O autocontrole é o meio pelo qual se consegue Ser.

Não há nada sem sacrifício; não pode haver nada sem sacrifício. Ele legitima o sucesso, o sabor. É a compensação pelo sorriso e pelo esforço; por todas as forças intelectuais, físicas e espirituais suas que travaram entre si conflitos e ascenderam ao mesmo tempo. O equilíbrio, portanto, faz-se mais do que necessário. É também importante o conhecimento, o Jnana, que é aquela percepção além do intelecto. Um saber que parte do espírito e não do mero raciocínio e da mera lógica humana.

Todos os esforços desembocam em mesmo lugar; todas as ações findam em um mesmo ponto. A questão não é aonde chegar, mas sim como chegar. O homem cria esse caminho à medida que se esforça para alcançar o que se almeja, essa espécie de perfeição, essa espécie de completude. O esforço forja o bom caminho. A negligência é uma desonra para com seu espírito, fragmento de um outro maior, soberano e essência de todos. O homem deve se empenhar em tudo o que se propõe... sempre.

*Escritura antiga hindu. Segundo alguns, a tradição oral do mesma chega a quase mil anos antes de Cristo. 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Erik von Kuehnelt-Leddihn

For the average person, all problems date to World War II; for the more informed, to World War I; for the genuine historian, to the French Revolution.